A Economia Geopolítica de Marx:

As relações entre nações produtoras

 

Radhika Desai (*)

 

 

Resumo

Este breve artigo explora a conceção das relações internacionais do mundo capitalista contida na última secção dos Grundrisse, intitulada "Bastiat e Carey". Mostra que, ao contrário da tendência generalizada para considerar Marx como um teórico da "globalização", Marx levou, de facto, a sério a existência dos Estados-nação e das economias nacionais e concebeu as suas inter-relações como decorrentes das contradições do capitalismo.

 

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Economia Geopolítica é o meu termo para a análise propriamente histórico-materialista dos assuntos internacionais, capaz de compreender com sucesso a evolução da ordem mundial capitalista até à era contemporânea, da multipolaridade (Desai, 2013). Está inserida no pensamento de Karl Marx, embora não esteja nele totalmente desenvolvida. Talvez a sua expressão mais clara possa ser encontrada nos seus comentários fragmentários sobre o economista mercantilista norte-americano, Henry Carey, nas páginas finais dos Grundrisse (Marx, 1973). Uma parte considerável dos meus escritos sobre economia geopolítica teve de se concentrar no porquê de ela ser necessária e por que razão os entendimentos existentes, incluindo a maioria dos marxistas, não são satisfatórios. Neste breve artigo, limitarei a minha crítica ao um esboço sucinto e refletirei de forma simples e construtivamente sobre a forma como a economia geopolítica emerge das ideias de Marx, especificamente dos seus comentários sobre Carey, embora argumentos e comentários relacionados com esses permeiem os escritos de Marx (Desai, 2013, p. 36-43).

 

Na última secção dos Grundrisse, "Bastiat e Carey", Marx apresenta o protecionista Henry Carey como uma exceção ainda maior ao declínio geral da economia política após Ricardo do que o defensor do comércio livre Frédéric Bastiat. Tendo criticado Carey anteriormente, entre outras coisas, pela sua crença na harmonia das relações de classe burguesas e pela sua implícita defesa da escravatura nos E.U.A. (Marx & Engels 1975; Perelman 2008) (1), Marx tem agora um propósito bastante diferente. Examina o discurso de Carey, separando os seus vislumbres dos seus pontos cegos, para situar o seu protecionismo numa compreensão mais ampla das relações internacionais do capitalismo.

 

Marx desculpa a Carey o facto der ele considerar "naturalmente" "as relações de produção dentro das quais este enorme mundo novo [os Estados Unidos da América, sua terra natal] se desenvolveu tão rapidamente, tão surpreendentemente e tão felizmente" como as "relações eternas e normais de produção social". Ao mesmo tempo, Marx não deixa de salientar que, ao atribuir todas as "perturbações" nesta suposta ordem harmoniosa aos "excessos e interferências do Estado na sociedade burguesa", Carey não considera "até que ponto estas influências estatais, dívida pública, impostos, etc., emergem a partir das próprias relações burguesas".

 

A aversão de Carey a que os Estados perturbam o que considerava serem processos harmoniosos do capitalismo, observa Marx, "termina com o apelo à intervenção estatal, para que o puro desenvolvimento das relações burguesas não seja perturbado por forças externas", a saber, "a influência destrutiva da Inglaterra, com a sua busca do monopólio industrial sobre o mercado mundial" (2). Aqui, Marx elabora um pouco a partir desta inadvertida contradição de Carey consigo próprio:

 

“... Com Carey, a harmonia das relações burguesas de produção termina com a mais completa desarmonia destas relações no terreno mais grandioso onde elas aparecem, o mercado mundial, e no seu maior desenvolvimento, como as relações das nações produtoras. Todas as relações que lhe parecem harmoniosas dentro de específicas fronteiras nacionais... parecem-lhe desarmónicas quando aparecem na sua forma mais desenvolvida – na sua forma de mercado mundial – como as relações internacionais que produzem a dominação inglesa no mercado mundial... A concentração do capital dentro de um país e o efeito dissolvente dessa concentração não apresentam nada senão lados positivos para ele. Mas o monopólio do capital inglês concentrado e o seu efeito dissolvente sobre capitais nacionais mais pequenos de outros países é desarmónico. O que Carey não compreendeu é que estas desarmonias do mercado mundial são apenas as adequadas expressões definitivas das desarmonias que se fixaram como relações abstratas no seio das categorias económicas ou que têm uma existência local à menor escala... Esta contradição forma a originalidade dos seus escritos confere-lhes o seu significado(3).

 

Os elementos centrais do que considero a Economia Geopolítica estão contidos nesta passagem. Contrariam diretamente muitas conceções contemporâneas que pensadores tão diversos como Friedrich List e Antonio Gramsci teriam apelidado de "cosmopolitas", por desconsiderarem o papel crítico das nações, dos Estados-nação e das economias nacionais no capitalismo.

 

Tais conceções impedem qualquer compreensão histórico-materialista eficaz do que impulsiona as relações internacionais. Elas floresceram em grande parte porque, precisamente quando V.I. Lenine e os bolcheviques reconheceram a importância dos Estados-nação no capitalismo mundial, o marxismo nos países ocidentais sofreu um grande golpe. A economia neoclássica surgiu na década de 1870 em oposição teórica, metodológica e política direta ao marxismo. Este desenvolvimento deveria ter estimulado e aprofundado o marxismo, fazendo-o estender a sua crítica da Economia Política a esta nova abordagem ainda mais problemática e superficial. Embora alguns marxistas – em especial Rudolf Hilferding e Nikolai Bukharin - tenham contestado as afirmações desta nova escola, ainda no início do século XX, tendo Bukharin famosamente proclamado-a "a teoria económica da classe ociosa" (Bukharin 1972; Hilferding et al. 1949), já na década de 1880, muitos outros, remontando pelo menos ao marxista jurídico russo Mikhail Tugan Baranovsky, perseguiram aquilo que Bukharin criticou como sendo uma "política de conciliação teórica" em relação a ela (Desai 2020). À medida que mais e mais intelectuais formados nesta disciplina burguesa chegavam ao marxismo, em vez de criticarem sua própria formação, procuraram, em vez disso, encaixar o marxismo na sua estrutura antitética.

 

O resultado foi a "economia marxista". As suas correntes dominantes são um obstáculo à nossa compreensão da crítica de Marx à Economia Política, em toda a sua plenitude e originalidade. A economia neoclássica centrou-se na troca e não na produção, nos preços e não no valor, nos indivíduos e não nas classes. Era a-histórica e artificialmente separada de uma "economia" do resto da realidade social. Não conseguindo compreender o capitalismo como uma produção de valor contraditória, os economistas marxistas rejeitaram a análise de valor do capitalismo de Marx porque, afirmavam muitos, esta sofria de um "problema de transformação". Não conseguia "transformar" valores em preços de uma maneira compatível com taxas de lucro iguais entre capitais que empregavam proporções variáveis de trabalho e capital. Muitos rejeitaram também a explicação de Marx sobre as principais contradições do capitalismo. Em particular, muitos argumentaram que ele não acreditava que a escassez de procura fosse uma, senão a, contradição do capitalismo, e muitos outros que ele estava errado ao pensar que os lucros tendiam a cair. Com a análise de valor e as principais contradições do capitalismo assim postas de lado, a corrente principal da economia marxista ostentava agora uma conceção do capitalismo mais ou menos livre de contradições e a-histórica (Desai 2016, 2017, 2018) (4).

 

Esta conceção era também cosmopolita. Juntamente com o papel central que os Estados desempenham na gestão das contradições do capitalismo através de políticas domésticas (por exemplo, de providência social ou repressivas) e internacionais (geralmente imperialistas e anti-imperialistas), as relações competitivas, conflituosas e colusivas entre os Estados do mundo capitalista são excluídas do guião. O capitalismo mundial pode agora ser concebido em termos daquilo a que chamo as ficções ricardianas gémeas: a Lei de Say e a Vantagem Comparativa. Surge como uma única economia mundial perfeitamente unificada pelos mercados, como nos discursos do comércio livre ou da globalização, ou por um único Estado, como nos discursos da hegemonia ou do império dos E.U.A.. A divisão do mundo capitalista em Estados nacionais torna-se um mero artefacto "cultural" (Desai, 2009). As economias nacionais tornam-se invenções da imaginação e o que a maioria dos economistas marxistas tem a dizer sobre assuntos internacionais tem muito pouca relação com a análise que Marx faz do capitalismo como produção de valor contraditória. Em seu lugar, colocam uma celebração schumpeteriana da sua suposta expansão produtiva prometeica. Os marxistas de outras disciplinas simplesmente aceitaram esta conceção de capitalismo. Para a maioria deles, Marx tornou-se uma espécie de profeta da globalização, entendida como um "império da sociedade civil" (Rosenberg 1994; para uma crítica, ver Desai 2010).

 

Um quadro completamente diferente emerge quando lemos Marx sem estes prismas distorcidos. As poucas páginas que Marx dedica a Carey no final dos Grundrisse devem deixar isso amplamente claro.

 

A materialidade das nações "cresce das próprias relações burguesas"

 

Quando Marx repreende Carey por este não compreender que aquilo que considera "os excessos e as interferências do Estado na sociedade burguesa... brota[ndo] das próprias relações burguesas", aponta para o cerne de uma economia geopolítica a que chamei a materialidade das nações. Ao contrário da tendência para conceber um "capitalismo puro" sem necessidade de ação estatal, o carácter anárquico e explorador do capitalismo significa que os Estados não estão apenas envolvidos no estabelecimento do capitalismo, mas também permanecem envolvidos na gestão das suas economias posteriormente. A afirmação de alguns marxistas de que a famosa Parte Oito de O Capital, Volume I, descreve a expropriação imposta pelo Estado (aquilo que Marx criticou como "a chamada acumulação primitiva" ou acumulação original) como confinada às origens do capitalismo é falsa. É defendida por todo o tipo de marxistas que se baseiam em falsas interpretações de Marx ou que anseiam por reivindicar uma falsa originalidade para si próprios.

 

Na realidade, ao longo de toda a vida do capitalismo, os Estados devem gerir as consequências das contradições do capitalismo. Ao fazê-lo, devem caminhar sobre uma linha ténue. Por um lado, devem ser suficientemente eficazes para garantir a continuidade do capitalismo. Por outro, devem ser suficientemente contidos ou suficientemente sub-reptícios nas suas intervenções para não provocarem questionamentos populares sobre a utilidade da manutenção da ordem capitalista. Não se podem dar ao luxo de permitir que as pessoas percebam que a ação pública pode substituir a do capital privado. Se um tal questionamento fosse suficientemente longe, poria em causa a legitimidade de deixar as rédeas da "economia" (na realidade, o controlo sobre as possibilidades de lucro) nas mãos dos capitalistas. Por exemplo, a desigualdade gerada pelo capitalismo deve ser gerida através da promoção de compromissos de classe, os quais, porém, devem ser impedidos de restringir as prerrogativas capitalistas ao ponto de questionarem a própria existência do capitalismo.

 

Em segundo lugar, contradizendo a tendência schumpeteriana dos marxistas para atribuir ao capitalismo uma capacidade prometeica de crescimento e desenvolvimento, em que o sistema simplesmente corrige as suas próprias contradições, pelo que a solução para as crises simplesmente "vem por si própria" (Schumpeter, 1934), o capitalismo tendeu historicamente para a estagnação. Os Estados tiveram, por isso, de desempenhar um papel crucial na organização da sua expansão: o imperialismo no século XIX e início do século XX e, após o declínio do poder imperial do Ocidente, com a descolonização, através da gestão keynesiana da procura e, no caso das potências capitalistas mais bem-sucedidas, através da política industrial ao longo da história do capitalismo.

 

A Economia Geopolítica liga, portanto, o marxismo com uma vasta literatura sobre os Estados desenvolvimentistas nos tempos modernos, um verdadeiro "outro cânone" (Reinert & Daastøl 2004), por oposição à economia neoclássica, que remonta até Antonio Serra, passando por Friedrich List e Henry Carey, até figuras contemporâneas como Alice Amsden, Robert Wade, Ilene Grabel ou Ha-Joon Chang. Todos enfatizaram a centralidade dos Estados na gestão do desenvolvimento do capitalismo.

 

Finalmente, os Estados devem gerir as tendências endógenas do capitalismo para a crise. Embora existam razões para acreditar que Marx considerou algumas delas, principalmente a escassez de procura e, possivelmente, a tendência ao declínio das taxas de lucro, mais tendências de crise fundamentais assombram todas as esferas do capitalismo, podendo assumir formas de classe intra-capitalistas, decorrentes da competição entre capitais, ou formas inter-classes, resultante da luta de classes (5).

 

A materialidade das nações implica um desenvolvimento desigual e combinado

 

A maioria dos marxistas nunca se refere ao desenvolvimento desigual e combinado. Entre os poucos que o fazem, a maioria limita-se a falar de desenvolvimento desigual, referindo-se a um domínio ocidental imutável, uma tendência mais plenamente desenvolvida entre os geógrafos (Smith 2010). Quanto ao número ainda mais reduzido dos que falam de desenvolvimento combinado, referem-se eles apenas à combinação passiva de formas arcaicas e modernas, nos países em desenvolvimento (Davidson 2016), ou à coexistência global de sociedades em vários estágios de desenvolvimento (Rosenberg 2016). Um número ainda mais reduzido fala dele como um projeto ativo dos Estados, mas apenas de países socialistas atrasados (Löwy 1981). A minha Economia Geopolítica é a única obra que conheço que interpreta o desenvolvimento combinado de uma forma que também inclui o desenvolvimento capitalista combinado dos Estados Unidos da América, da Alemanha ou do Japão no final do século XIX e início do século XX, passando pelo desenvolvimento combinado "comunista" da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, até à República Popular da China e às economias emergentes de hoje.

 

Embora a ideia de desenvolvimento desigual e combinado seja geralmente atribuída a Leon Trotsky, sendo considerado seu locus classicus o primeiro capítulo da sua História da Revolução Russa, os traços essenciais do conceito já estão presentes no pensamento de Marx e Engels, bem como no de muitos marxistas posteriores (6). Vemos isso claramente nos comentários de Marx sobre Carey. Ele considera a contradição que Carey inadvertidamente revela – aquela que existe entre “a luta da Inglaterra pelo monopólio do mercado mundial” e a necessidade de a economia dos E.U.A. ser protegida contra isso – como sendo a sua grande contribuição original. Na luta por manter o seu monopólio, a Inglaterra procura perpetuar a desigualdade, enquanto, na luta para o desafiar, os Estados Unidos da América se empenharam num desenvolvimento combinado. Tais lutas constituem um dos dois principais motores das relações internacionais do mundo capitalista (sendo o outro a competição entre os principais Estados capitalistas). Os escritos marxistas do início do século XX sobre o imperialismo, que viam isto claramente, devem ser considerados as primeiras teorias propriamente ditas das relações internacionais capitalistas. Estas teorias foram as primeiras a propor que as

 

Relações internacionais do mundo capitalista são essencialmente relações burguesas

 

Só quando o desenvolvimento desigual e combinado é concebido desta forma é que nos é permitido compreender o que está em causa nas lutas internacionais. Estas consistem em tentativas das nações dominantes procurarem preservar ou intensificar a desigualdade que as privilegia. Quando bem-sucedidas, consignariam o resto do mundo a uma relação de complementaridade, em que as nações dominantes monopolizariam a produção de elevado valor e as restantes se especializariam na produção de baixo valor. As nações concorrentes rejeitam este estado de coisas e procuram, através do desenvolvimento dirigido pelo Estado, recomendado por Friedrich List ou Henry Carey (7) e prosseguido por uma longa linhagem de desenvolvimentistas bem-sucedidos, começando pela Alemanha, Estados Unidos da América e Japão, estabelecer relações de similaridade. Na década de 1930, esta linhagem adquiriu um novo ramo – o do desenvolvimento combinado não capitalista ou "comunista". A importância deste foi sublinhada pelo sucesso económico da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, anteriormente, e pelo da República Popular da China atualmente.

 

As lutas motivadas pela escolha radical entre complementaridade e pobreza, por um lado, e a similaridade e prosperidade, por outro, ocorrem, diz Marx, "no terreno mais grandioso em que [as relações burguesas] aparecem, o mercado mundial, e no seu maior desenvolvimento, como as relações entre as nações produtoras". Note-se aqui o uso das palavras "produtoras", em vez de capitalistas. Por um lado, Marx está claramente a falar de relações capitalistas. Por outro, deixa em aberto a possibilidade de uma das partes dessa luta possa não ser capitalista. Ele tinha provavelmente em mente a possibilidade de que pudessem ser pré-capitalistas, embora hoje também possam ser pós-capitalistas. E compreender esta interação exige que não nos baseemos apenas na vasta literatura sobre as sociedades pré-capitalistas e a sua "articulação" com as capitalistas, para compreender as suas relações internacionais, mas também que desenvolvamos uma compreensão histórico-materialista de como as sociedades pós-capitalistas e capitalistas se relacionam. Um sub-ramo muito interessante deste estudo envolveria também refletir sobre a forma como as sociedades capitalistas social-democratas reformadas se relacionam com todas as outras.

 

As contradições do capitalismo no plano mundial

 

Nas observações sobre Carey, Marx salienta ainda que as "desarmonias do mercado mundial", de que Carey se queixa, são "apenas as adequadas expressões definitivas das desarmonias que se fixaram como relações abstratas no seio das categorias económicas ou que têm uma existência local à menor escala". O que Marx está aqui a dizer, aquilo que critica a Carey por este não se aperceber, é que as desarmonias ou contradições internacionais, de que Carey se queixa, não são mais do que as "expressões adequadas últimas", no palco mundial, das contradições domésticas do capitalismo que "têm uma existência local à escala mais pequena".

 

A implicação crítica disto é que estas contradições domésticas são os motores das relações internacionais do capitalismo, bem como da sua evolução doméstica, criando os imperativos e estabelecendo os limites das ações estatais. Por conseguinte, é tarefa da Economia Geopolítica desenvolver uma compreensão de como os Estados agem para resolver as contradições do capitalismo. Procuram resolvê-las à custa das classes trabalhadoras nacionais, à custa dos países mais pobres ou menos poderosos no estrangeiro, ou através de uma combinação entre estes dois recursos? Que fatores determinam essa escolha e que equilíbrio se estabelece entre estas alternativas? Tal análise deve incluir as formas características que as ações estatais assumem a nível nacional e internacional. A compreensão do alcance destas ações deve ser histórica, não abstrata.

 

Devo terminar aqui, mas não sem antes observar que esta lista de pontos é inevitavelmente parcial. Outros fatores a incluir numa discussão mais aprofundada seriam:

 

- Como é que o desenvolvimento combinado começou a limitar o imperialismo.

 

- Se o avanço da multipolaridade no século XXI terá resultados menos letais hoje do que antes, quando conduziu à Primeira Guerra Mundial, e, se sim, porquê.

 

- O papel das teorias cosmopolitas como ideologias dominantes do mundo capitalista. No mínimo, pode dizer-se o seguinte.

 

A tese da ideologia internacionalmente dominante

 

Diz-se que as ideias dominantes de qualquer sociedade são as ideias das classes dominantes, ideias que servem os seus interesses e mantêm o seu poder. Se assim é, as ideias dominantes sobre a ordem mundial tenderiam, compreensivelmente, a ser as das potências dominantes. E poderíamos esperar que estas ideias dominassem, não porque estivessem certas, mas porque são úteis para perpetuar o domínio das potências dominantes, principalmente por mistificarem as verdadeiras fontes da riqueza e do poder nacionais. Este foi, na verdade, o cerne da posição apresentada por pensadores protecionistas como Carey e List, que Marx está claramente a apoiar nas passagens aqui discutidas.

 

Vale aqui a pena referir que Marx criticou de tal forma as ficções ricardianas que estão no cerne das visões cosmopolitas da ordem mundial, sustentadas pela economia neoclássica, que penetraram também na economia marxista: a Lei de Say e a Vantagem Comparativa. A crítica de Marx à Lei de Say, por fingir que a troca não é mediada pelo dinheiro e concebê-la falsamente como troca, é bem conhecida. Não é tão frequentemente reconhecido que Keynes, que atualizou a crítica à Lei de Say, também admirava a crítica de Marx à referida “lei”. Considerava-a mesmo como um golpe de génio e até adotou a fórmula geral de Marx para o capital, distinguindo o circuito do capital do circuito das mercadorias, ao elaborar uma versão inicial da sua própria análise (Claudio Sardoni, 1997). A crítica de Marx à vantagem comparativa é relativamente desconhecida. No entanto, a sua discussão sobre o comércio externo como um dos mecanismos que neutralizam a queda da taxa de lucro rejeita as principais premissas da teoria ricardiana da vantagem comparativa, enquanto o seu tratamento das relações internacionais de valor aponta para condições de troca desigual (renda imperial). De um modo mais geral, Marx e Engels estavam bastante conscientes de que o comércio livre era o discurso interesseiro dos ingleses. Desejar-se-ia que mais marxistas contemporâneos seguissem Marx em vez de Ricardo e se tornassem menos crédulos em relação ao livre comércio e seus avatares do século XX, à hegemonia dos E.U.A., à globalização e ao império.

 

 

 

 

 

 

 

(*) Radhika Desai (n. 1963) é uma economista política de origem indiana, atualmente professora no Departamento de Estudos Políticos e diretora do Grupo de Investigação em Economia Geopolítica, na Universidade de Manitoba, Winnipeg, Canadá. Depois de concluir a sua licenciatura em Ciências Políticas na Universidade Maharaja Sayajirao de Baroda, na Índia, prosseguiu a sua formação académica na Queen's University, no Canadá, onde concluiu o seu mestrado em 1986 e o seu doutoramento em 1992. Em 2000, foi professora visitante na Universidade de Bangalore, na Índia, em 2008 foi investigadora no Zentrum Moderner Orient, em Berlim, e em 2009 foi convidada académica na London School of Economics and Political Science. É membro da Conference of Socialist Economists e, desde 2020, presidente da Society for Socialist Studies. É autora de numerosas obras, entre as quais Intellectuals and Socialism: 'Social Democrats' and the Labour Party (1994), Slouching Towards Ayodhya: From Congress to Hindutva in Indian Politics (2.ª ed. rev., 2004), Geopolitical Economy: After US Hegemony,Globalization and Empire (2013) e Capitalism, Coronavirus and War A Geopolitical Economy (2023). É também editora ou coautora de Developmental and Cultural Nationalisms (2009), Revitalizing Marxist Theory for Today’s Capitalism (2010), Theoretical Engagements in Geopolitical Economy (2015), Analytical Gains from Geopolitical Economy (2015) e Russia, Ukraine and Contemporary Imperialism (2019). É também autora de numerosos artigos na Economic and Political Weekly, New Left Review, International Critical Thought, Third World Quarterly, World Review of Political Economy, World Marxist Review (de que é co-editora em chefe) e outras revistas, bem como em coleções editadas sobre partidos, economia política, cultura e nacionalismo. Com Alan Freeman, é co-editora da série de livros “Geopolitical Economy” da Manchester University Press e da série de livros “Future of Capitalism” da Pluto Press. Este artigo foi originalmente publicado no Vol. 46, N.º 1 (março de 2022) da revista Capital & Class, pp. 1-8. Pode ser acessado na íntegra em Academia.Edu. A tradução é da responsabilidade de Ângelo Novo.

 

 

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NOTAS:

 

(1) Marx e Engels (1975: pp. 78–79, 212–215). Perelman (2008) contém uma discussão útil sobre as disputas de Marx com Carey, que também propõe uma explicação surpreendente para a (apenas) aparente celebração, feita pelo primeiro, dos “Resultados Futuros do Domínio Britânico na Índia”.

 

(2) Marx (1973: pp. 884–885).

 

(3) Marx (1973: pp. 886–887).

 

(4) Elaborei esta crítica em diversos ensaios: Ver, por exemplo, Desai (2020); ‘Political Economy’.

 

(5) Desai (2016 e 2021) contém uma discussão sistemática das fontes e formas das crises capitalistas.

 

(6) Desai (2013: pp. 36–53).

 

(7) O tratamento relativamente simpático que Marx dispensa ao norte-americano Carey aqui parece contrastar fortemente com os seus comentários desdenhosos sobre o seu compatriota Friedrich List. Defendo que essa aparência é enganadora em Desai (2012).

 

 

 

 

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