As três ameaças existenciais do século XXI:

Inteligência artificial, alterações climáticas e armas nucleares

 

 

Hassan Fattahi e Zahra Mohebi-Pourkani (*)

 

 

 

Este ensaio examina criticamente três das mais formidáveis ameaças existenciais que a humanidade enfrenta no século XXI: a inteligência artificial (IA) avançada, as alterações climáticas crescentes e as armas nucleares. Estes perigos, cada um com um alcance global e potencial para consequências catastróficas e irreversíveis, representam desafios únicos e interligados para a civilização humana. Com base num consenso científico crescente e no alarme institucional internacional, esta análise explora as características estruturais que tornam cada ameaça existencial, investiga as suas interações perigosas e examina a investigação teórica e empírica. O ensaio propõe ainda uma estrutura para a investigação, políticas e ações futuras, enfatizando a necessidade urgente de modelos integrados de governação global. Sintetizando vislumbres da literatura contemporânea em IA, ciência climática e segurança nuclear, o ensaio defende que só uma abordagem holística, interdisciplinar e cooperativa pode garantir a sobrevivência e o florescimento da humanidade.

 

1. Introdução e enunciado do problema

 

A humanidade encontra-se numa encruzilhada paradoxal: o avanço científico e tecnológico sem precedentes aumentou o nosso poder sobre a natureza e sobre nós próprios, mas esse mesmo poder multiplicou a nossa vulnerabilidade à autoaniquilação existencial. Em nenhum outro lugar este paradoxo é mais agudo do que em três domínios — inteligência artificial (IA), alterações climáticas e armas nucleares — cada um dos quais transcende as fronteiras nacionais e as escalas temporais geracionais. O termo “ameaça existencial” é reservado para perigos que podem limitar irreversivelmente o potencial futuro da humanidade, quer causando a extinção, quer eliminando permanentemente a possibilidade de um florescimento humano significativo.

 

A IA representa uma nova classe de tecnologia transformadora de dupla utilização, cuja trajetória é marcada por capacidades crescentes, autonomia cada vez maior e integração cada vez mais profunda em infraestruturas críticas e na tomada de decisões. As alterações climáticas, o legado cumulativo da atividade industrial, iniciaram ciclos biosféricos de retroalimentação (“feedback”) com o poder de desestabilizar os sistemas de suporte de vida do planeta. As armas nucleares, por sua vez, permanecem como uma perigosa herança das rivalidades geopolíticas do século XX, mantendo a capacidade de destruição instantânea e catastrófica para a civilização.

 

Estas três ameaças não são independentes; pelo contrário, constituem um “triângulo de perigo” cujas interações podem exacerbar mutuamente os riscos. Este ensaio visa fornecer uma estrutura analítica integrada para a compreensão da natureza existencial destas ameaças, das suas interligações e do imperativo de respostas globais coletivas. O objetivo central da investigação é sintetizar a literatura científica e política contemporânea para fundamentar um engajamento racional com esta perigosa tríade.

 

2. Exame detalhado das ameaças

 

2.1 Inteligência artificial avançada: ameaça interna à tecnologia

 

A inteligência artificial deixou o reino da ficção científica para se tornar uma tecnologia em rápida maturação, com profundas implicações para a segurança, a economia e a sociedade. Ao contrário das tecnologias anteriores, a IA tem o potencial para o autoaperfeiçoamento recursivo e a generalização, o que levanta preocupações sobre o alinhamento, o controlo e o risco sistémico.

 

O Problema do Alinhamento

 

O problema do alinhamento denota a dificuldade de garantir que sistemas de IA altamente capazes procurem objetivos compatíveis com valores humanos complexos e frequentemente ambíguos, como a liberdade, a dignidade e a diversidade. Como observado por Bharati et al. (2023), os modelos opacos de "caixa negra" em domínios críticos como a saúde já apresentam desafios em termos de interpretabilidade e fiabilidade, destacando o risco mais amplo de que os sistemas de IA possam adotar estratégias ou comportamentos desalinhados com os resultados pretendidos (Bharati, Mondal & Podder, 2023). Em geral, uma IA superinteligente desalinhada poderia, mesmo sem má intenção, otimizar os objetivos de formas catastróficas para os humanos.

 

Sistemas de Armas Autónomas Letais (SAAL)

 

O desenvolvimento de armas autónomas letais — máquinas capazes de identificar e atacar alvos de forma independente — levanta dilemas jurídicos, éticos e estratégicos sem precedentes. À medida que a IA avança, a delegação de decisões de eliminação em algoritmos ameaça minar o direito humanitário e desestabilizar regimes de dissuasão, particularmente se implantadas em enxames ou integradas em estruturas de comando nuclear (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Aprofundamento da desigualdade e concentração de poder

 

O impacto económico da IA é profundamente bifurcado. A concentração de dados, recursos computacionais e conhecimento algorítmico num punhado de empresas globais e Estados ameaça criar divisões de classe intransponíveis. Tal como acontece com outras tecnologias disruptivas, o risco é que o poder económico e informacional se acumule de forma desproporcional, minando a coesão social e a governação democrática (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Guerra da informação e erosão da verdade

 

Ferramentas baseadas em IA, como as super-falsificações (“deepfakes”) e os media sintéticos, facilitam uma manipulação sem precedentes dos ecossistemas de informação. A capacidade de disseminar a desinformação de forma automatizada e escalável mina a confiança pública, a integridade eleitoral e a segurança nacional, agravando a crise epistémica que já aflige muitas sociedades (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Desemprego estrutural em massa

 

A automação, cada vez mais impulsionada pela aprendizagem automática e pela robótica, ameaça criar um desemprego estrutural à escala global. Embora a IA possa aumentar a produtividade e criar novas categorias de emprego, o ritmo e o alcance da deslocação — especialmente nos setores cognitivo e dos serviços — pode exceder a capacidade de adaptação das economias, gerando instabilidade política (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Vigilância omnipresente

 

As arquiteturas de vigilância baseadas em IA permitem a monitorização e a previsão em tempo real do comportamento individual e coletivo. Estas capacidades, quando combinadas com a análise de grandes bases de dados (“big data”), fortalecem tanto os atores estatais como os empresariais, intensificando os modelos de governação autoritários e levantando questões profundas sobre a privacidade e a autonomia (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Aceleração da corrida armamentista

 

A competição militar na IA, especialmente entre grandes potências, fomenta uma dinâmica de corrida ao armamento. A rápida implantação de sistemas não testados ou pouco compreendidos em funções militares críticas aumenta a probabilidade de acidentes, perceções erradas e escalada de conflitos, particularmente em cenários de crise envolvendo armas nucleares (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Vulnerabilidade da infraestrutura crítica

 

Os sistemas de IA podem ser utilizados como armas para identificar e explorar vulnerabilidades em infraestruturas essenciais — eletricidade, água, transportes, sistemas financeiros — quer diretamente, quer como parte de ataques cibernéticos. O potencial para falhas em cascata e colapso sistémico é ampliado pela interligação da infraestrutura moderna (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Erosão da agência e do julgamento humanos

 

A crescente delegação da tomada de decisões nos sistemas de IA acarreta o risco de atrofia das competências humanas essenciais — julgamento, responsabilidade e resolução criativa de problemas (Gizzi et al., 2022). À medida que a IA se torna mais central em domínios de alto risco, aumenta o perigo de os humanos se tornarem supervisores passivos, incapazes ou relutantes em questionar as recomendações das máquinas.

 

Facilitação de outras ameaças

 

A IA é um multiplicador de forças para outros riscos existenciais. Pode acelerar a investigação em armas químicas e biológicas, orientar os ciberataques ao comando e controlo nuclear e otimizar a exploração destrutiva dos recursos naturais (Bennett & Hauser, 2013). O carácter de dupla utilizabilidade da IA realça a urgência de estruturas de governação robustas (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

2.2 Alterações climáticas: ameaça de interação com a biosfera

 

As alterações climáticas, impulsionadas pelas emissões antropogénicas de gases com efeito de estufa, estão a desestabilizar o sistema terrestre de formas que ameaçam diretamente os alicerces da civilização humana. As mais recentes descobertas científicas sobre o clima apontam para riscos tanto graduais como abruptos, alguns dos quais podem ser irreversíveis em escalas de tempo humanas (O’Gorman, 2015; Sanjay et al., 2020).

 

Eventos climáticos extremos frequentes

 

As alterações climáticas estão a intensificar a frequência e a severidade de eventos climáticos extremos — inundações, tempestades, secas, ondas de calor — causando perdas diretas de vidas e vastos danos económicos (O’Gorman, 2015). Estudos observacionais e de modelação indicam que os extremos de precipitação, em particular, estão a aumentar em resposta ao aquecimento global, sendo a sensibilidade a estes extremos maior nos trópicos do que nas regiões extratropicais (O’Gorman, 2015; Sanjay et al., 2020).

 

Elevação do nível do mar e refugiados climáticos

 

O derretimento acelerado do gelo polar e a expansão térmica dos oceanos estão a impulsionar a subida do nível do mar, ameaçando povoações costeiras em todo o mundo. Os aumentos projetados, especialmente em cenários de emissões elevadas, podem fazer deslocar dezenas a centenas de milhões de pessoas neste século, criando ondas de refugiados climáticos e intensificando a instabilidade geopolítica (Sanjay et al., 2020).

 

Crise de segurança alimentar e hídrica

 

As alterações climáticas nos padrões de temperatura e de precipitação já estão a afetar a produtividade agrícola e a disponibilidade de água doce. As projeções para a região da Índia, por exemplo, mostram uma maior incerteza e intensidade acrescida tanto nas estações secas como nas estações chuvosas, colocando uma enorme pressão sobre os sistemas biofísicos e os setores económicos dependentes (Sanjay et al., 2020). O risco é agudo para as populações já vulneráveis à fome e à escassez de água.

 

Extinção em massa e colapso dos ecossistemas

 

A perda de biodiversidade, impulsionada pela alteração de habitats, pela acidificação dos oceanos e por outros fatores de stress relacionados com o clima, compromete os serviços prestados pelos ecossistemas, dos quais a civilização depende — a polinização, a purificação da água e a regulação das doenças. A taxa de extinções atual já excede em muito a taxa natural, e ultrapassar os pontos de inflexão ecológicos pode precipitar um colapso total dos ecossistemas (O’Gorman, 2015).

 

Crise global de saúde

 

As alterações climáticas estão a expandir o raio de alcance geográfico das doenças transmitidas por vetores, aumentando a mortalidade por stress térmico e exacerbando os problemas respiratórios devido à poluição atmosférica e ao fumo dos incêndios florestais. A interação entre o clima e os sistemas de saúde é complexa e pouco compreendida, mas a tendência aponta para um aumento das emergências globais de saúde (O’Gorman, 2015).

 

Multiplicador de conflitos e instabilidade

 

A escassez de recursos e os eventos climáticos extremos funcionam como “multiplicadores de ameaças”, alimentando a agitação social, os conflitos interestatais e as migrações em massa. As relações entre clima e conflito são mediadas por choques económicos, capacidade de governação e tensões preexistentes, mas o efeito global é o de intensificar a instabilidade (Sanjay et al., 2020).

 

Perdas económicas devastadoras

 

Os custos diretos dos desastres e as perturbações indiretas nas cadeias de abastecimento, nas infraestruturas e na produtividade, estão a aumentar. As projeções climáticas de alta resolução para o sul da Ásia, por exemplo, destacam o potencial para choques económicos regionais à medida que os extremos de precipitação e de temperatura se intensificam (Sanjay et al., 2020).

 

Atravessar pontos de inflexão irreversíveis

 

Certos processos do sistema terrestre — degelo do pergelissolo, colapso das calotes polares, morte da Amazónia — têm o potencial de desencadear retroalimentações descontroladas, consolidando o aquecimento catastrófico e a subida do nível do mar. A incerteza e a irreversibilidade destes pontos de viragem são uma preocupação central na ciência climática contemporânea (O’Gorman, 2015).

 

Distribuição desigual do sofrimento

 

As alterações climáticas são fundamentalmente injustas: aqueles que menos contribuem para as emissões são os mais vulneráveis aos seus impactos. Os modelos projetam que as regiões semiáridas do norte da Índia, por exemplo, irão sofrer um aquecimento mais rápido, enquanto a capacidade de adaptação é menor nas comunidades mais pobres (Sanjay et al., 2020).

 

Ameaça à soberania e à ordem internacional

 

Os pequenos Estados insulares em desenvolvimento enfrentam um risco existencial de submersão, o que ameaça a sua soberania e a estabilidade da ordem internacional. A possibilidade de nações inteiras desaparecerem do mapa deixou de ser teórica (Sanjay et al., 2020).

 

2.3 Armas nucleares: ameaça remanescente da Guerra Fria

 

Apesar do fim da Guerra Fria, as armas nucleares continuam no máximo da sua capacidade destrutiva, com mais de 13.000 ogivas nucleares na posse de nove Estados. O risco de um conflito nuclear, seja por utilização deliberada destas armas, erro de cálculo ou acidente, continua inaceitavelmente elevado.

 

Destruição em massa imediata

 

Mesmo uma troca nuclear "limitada" poderia matar milhões em poucas horas, destruir as infraestruturas urbanas e sobrecarregar os sistemas de saúde e de emergência. Os efeitos não se restringiriam aos países beligerantes; a precipitação radioativa e os impactos climáticos seriam globais (Bennett & Hauser, 2013).

 

Inverno nuclear

 

As detonações de armas nucleares podem injetar vastas quantidades de fuligem na estratosfera, bloqueando a luz solar e desencadeando um “inverno nuclear”. Os modelos prevêem que o arrefecimento global daí resultante e a diminuição da precipitação podem causar quebras generalizadas de colheitas e fome, ameaçando milhares de milhões de pessoas (Bennett & Hauser, 2013).

 

Riscos de proliferação

 

A disseminação de armas nucleares por novos Estados — e potencialmente a atores não estatais — aumenta a probabilidade da sua utilização. À medida que as barreiras técnicas à aquisição diminuem e que os regimes de controlo de armas se enfraquecem, o mundo enfrenta uma nova era de instabilidade proliferativa (Bennett & Hauser, 2013).

 

Erros humanos, técnicos ou de julgamento

 

Numerosos incidentes quase catastróficos, ocorridos durante a Guerra Fria e posteriormente, revelaram a fragilidade sistémica das cadeias de comando e controlo nuclear, particularmente em situações de crise. Os falsos alarmes, erros de comunicação e falhas técnicas continuam a ser um risco persistente (Bennett & Hauser, 2013).

 

Vulnerabilidade cibernética

 

A integração da tecnologia digital no comando, controlo e comunicações (C3) nucleares introduz novas vulnerabilidades. Os ciberataques podem falsificar alertas, prejudicar a tomada de decisões ou até mesmo desencadear lançamentos acidentais (Bennett & Hauser, 2013).

 

Terrorismo nuclear

 

A possibilidade de grupos terroristas adquirirem materiais ou armas nucleares, seja por roubo, colapso do Estado ou no mercado negro, acrescenta uma nova dimensão ao cenário das ameaças nucleares (Bennett & Hauser, 2013).

 

Contaminação radioativa a longo prazo

 

Os efeitos ambientais e na saúde pública das detonações nucleares persistem durante gerações, com a precipitação radioativa a contaminar o solo, a água e o ar (Bennett & Hauser, 2013).

 

Destruição de infraestruturas por pulso eletromagnético (PEM)

 

Detonações nucleares a grandes altitudes podem gerar pulsos eletromagnéticos (PEM) capazes de destruir infraestruturas eletrónicas em vastas regiões, "reinicializando" (“resettig”) efetivamente a civilização tecnológica em áreas específicas alvejadas (Bennett & Hauser, 2013).

 

Erosão das normas de não proliferação

 

O enfraquecimento dos acordos de controlo de armas e das normas de não proliferação aumenta o risco de disseminação e utilização de armas nucleares (Bennett & Hauser, 2013).

 

Custos de oportunidade enormes

 

Os recursos alocados à manutenção e modernização dos arsenais nucleares representam enormes custos de oportunidade, desviando fundos da resolução de outros riscos existenciais, incluindo a adaptação climática e a segurança da inteligência artificial (Bennett & Hauser, 2013).

 

3. Interações perigosas e escalada mútua

 

Os riscos existenciais representados pela IA, pelas alterações climáticas e pelas armas nucleares não são independentes. Pelo contrário, as suas interações podem criar novos “riscos compostos” que são superiores à soma das suas partes.

 

IA × armas nucleares

 

A integração da IA no comando e controlo nuclear — seja no alerta precoce, na seleção de alvos ou no apoio à decisão — reduz os tempos de decisão e aumenta o risco de lançamentos acidentais ou não autorizados. Os ciberataques impulsionados pela IA podem comprometer os sistemas nucleares, aumentando o perigo de erros de cálculo ou de escalada. Como argumentam Bennett e Hauser (2013), a automatização em contextos clínicos e noutros contextos decisórios de alto risco deve ser acompanhada por salvaguardas robustas, mas em ambientes militares os incentivos para a implantação rápida podem sobrepor-se à cautela.

 

Alterações climáticas × conflito e risco nuclear

 

A escassez de recursos e a fragilidade estatal provocadas pelas alterações climáticas podem aumentar as tensões geopolíticas, aumentando o risco de conflito entre Estados com armas nucleares. A interação entre as crises alimentares e hídricas, a migração em massa e a governação fragilizada cria um terreno fértil para a escalada, seja ela intencional ou acidental (Sanjay et al., 2020).

 

IA × alterações climáticas

 

A IA oferece ferramentas para a modelação climática, a mitigação e a adaptação — melhorando as previsões, otimizando os sistemas energéticos e projetando infraestruturas resilientes (O’Gorman, 2015). No entanto, a IA pode também agravar as crises ao otimizar a extração de combustíveis fósseis, ao possibilitar a vigilância intrusiva das populações ou ao facilitar a exploração acelerada dos recursos naturais. O dilema do duplo uso está sempre presente (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

O triângulo do perigo

 

Estas interações ressaltam a necessidade de uma perspetiva holística. Abordar cada ameaça isoladamente é insuficiente; em vez disso, são necessárias abordagens integradas para compreender e gerir a dinâmica complexa e não linear do risco existencial composto.

 

4. Objetivos e questões de investigação propostos

 

Dada a magnitude e interdependência destas ameaças, a investigação futura deverá abordar tanto as suas dimensões individuais como coletivas. Entre os principais objetivos de investigação devem-se incluir:

 

Desenvolvendo novas estruturas (“frameworks”) de governação

 

Existe uma necessidade urgente de explorar modelos de governação internacional capazes de lidar com riscos existenciais transfronteiriços e complexos. As instituições existentes — como a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (PIAC) — devem ser reforçadas e devem ser criados novos órgãos para a governação da IA (Bharati, Mondal & Podder, 2023; Sanjay et al., 2020).

 

Modelação de riscos complexos

 

Modelos quantitativos que captem as probabilidades e os resultados de cenários interativos são essenciais. Por exemplo, qual a probabilidade de um grande desastre climático coincidir com a instabilidade política num Estado nuclear, e como é que os ciberataques impulsionados pela IA podem complicar a gestão de crises? Os vislumbres (“insights”) obtidos a partir de redes de decisão dinâmicas e processos de decisão de Markov, aplicados na área da saúde (Bennett & Hauser, 2013), podem ser adaptados para modelar estes riscos complexos.

 

Análise de caminhos desestabilizadores

 

A investigação deve focar-se nas formas específicas como a IA pode ser mal utilizada contra as alterações climáticas ou a segurança nuclear. Isto inclui a análise de cenários, simulações de ataques cibernéticos e o desenvolvimento de sistemas de alerta precoce (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Soluções convergentes

 

Identificar tecnologias e políticas que reduzam simultaneamente as três ameaças é uma prioridade. Por exemplo, a diplomacia científica, os mecanismos de transparência e a utilização da IA para verificação e monitorização podem construir confiança através de diferentes domínios (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Planeamento de preparação para crises

 

Devem ser elaborados protocolos internacionais de emergência para eventos imprevisíveis, como um grande desastre climático que coincida com uma crise num Estado com armas nucleares. As lições da IA na área da saúde, onde os sistemas de apoio à decisão baseados em dados em tempo real melhoraram os resultados (Bennett & Hauser, 2013), podem orientar o desenvolvimento de sistemas análogos para a gestão de ameaças existenciais.

 

5. Recomendações estratégicas

 

Abordar a tríade existencial da IA, das alterações climáticas e das armas nucleares exige, fundamentalmente, uma reformulação da governação global, das prioridades de investigação e da educação pública.

 

Fortalecimento das instituições internacionais

 

É essencial reforçar e fornecer recursos a organizações como a AIEA e o PIAC. Da mesma forma, devem ser criadas novas instituições para governar o desenvolvimento e a implantação de IA avançada, com base nas lições aprendidas com o controlo armamentista e a diplomacia climática (Sanjay et al., 2020; Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Diplomacia baseada na ciência

 

Devem ser estabelecidos canais permanentes de diálogo científico e técnico entre as grandes potências, isolados das flutuações políticas. A natureza interdisciplinar destas ameaças exige uma cooperação contínua entre especialistas em IA, cientistas climáticos, especialistas em desarmamento e cientistas sociais (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Investimento em “ciência segura”

 

São necessários orçamentos de investigação dedicados a estudos de riscos existenciais e estratégias de mitigação. Como Bennett e Hauser (2013) demonstram na área da saúde, o investimento na segurança da IA e no suporte dinâmico à decisão pode gerar tanto melhores resultados como poupanças de custos.

 

Educação e sensibilização globais

 

O estudo das ameaças existenciais e das suas soluções deve ser integrado nos currículos a todos os níveis, desde o ensino básico até à investigação de doutoramento. As campanhas de sensibilização pública são vitais para construir apoio às mudanças políticas necessárias (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Estruturas de transparência e confiança

 

Devem ser instituídos relatórios obrigatórios e transparência na IA militar, dos programas nucleares e das ações climáticas. Os regimes de verificação, talvez utilizando a própria IA para monitorização e conformidade, podem construir a confiança necessária para acordos eficazes de controlo de armas e climáticos (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

6. O papel da resolução criativa de problemas e da explicabilidade

 

Um tema recorrente na análise das três ameaças existenciais é a centralidade da criatividade, adaptabilidade e explicabilidade humanas tanto na identificação de problemas como na geração de soluções.

 

Resolução criativa de problemas em IA e governação

 

Como explanado por Gizzi et al. (2022), a resolução criativa de problemas (RCP) é essencial em circunstâncias em que o conhecimento estabelecido e as rotinas são insuficientes. A capacidade dos agentes humanos e artificiais formularem soluções inovadoras em cenários mal definidos e de alto risco é crucial para a gestão de crises. Num contexto do risco existencial, as estruturas de RCP devem orientar a conceção tanto dos sistemas de IA como das instituições políticas, garantindo flexibilidade, adaptabilidade e robustez face a desafios sem precedentes (Gizzi et al., 2022).

 

Inteligência artificial explicável

 

A falta de transparência e explicabilidade nos sistemas de IA é uma grande barreira à confiança e à governação eficaz, particularmente em domínios críticos para a segurança, como a saúde, as forças armadas e as infraestruturas (Bharati, Mondal & Podder, 2023). As metodologias de IA Explicável (IAX) são necessárias para garantir que as decisões possam ser compreendidas, auditadas e contestadas. A distinção entre explicabilidade e interpretabilidade é particularmente importante: a primeira aborda o porquê de ter sido tomada uma determinada decisão, a segunda o como (Bharati, Mondal & Podder, 2023). Em contextos de risco existencial, a IAX pode ajudar a prevenir erros catastróficos, permitindo a intervenção e a supervisão humanas.

 

Sistemas adaptativos de apoio à decisão

 

Bennett e Hauser (2013) demonstraram o poder dos processos de decisão de Markov e das redes de decisão dinâmicas para simular ambientes complexos e incertos na área da saúde. Abordagens semelhantes podem ser adaptadas para a gestão de riscos existenciais, fornecendo orientações em tempo real, baseadas em dados, para decisores políticos, equipas de resposta a emergências e instituições internacionais.

 

7. Estudos de caso e evidência empírica

 

Para fundamentar a análise, é instrutivo examinar evidências empíricas dos domínios da ciência climática e da IA, na sua relação com o risco existencial.

 

Projeções de alterações climáticas e vulnerabilidades regionais

 

O’Gorman (2015) apresenta uma síntese abrangente de resultados teóricos, de modelação e observacionais, sobre a intensificação dos eventos extremos de precipitação sob as alterações climáticas. As observações mostram que os eventos extremos de precipitação se intensificaram à medida que a temperatura média global aumentou, com sensibilidades mais elevadas nos trópicos (8–9% por grau K) do que nas regiões extratropicais (4–6% por grau K). Os mecanismos físicos — termodinâmicos (escalonamento de Clausius-Clapeyron), microfísicos e dinâmicos — são cada vez mais bem compreendidos, embora ainda existam incertezas, especialmente em relação à convecção tropical e à organização em mesoescala (O’Gorman, 2015).

 

Sanjay et al. (2020) alargam esta análise com projeções de alta resolução e à escala reduzida para a região da Índia, mostrando que o aquecimento será particularmente pronunciado no noroeste e norte semiáridos, com as temperaturas médias anuais a aumentarem até 4° C sob cenários de emissões elevadas até ao final do século. Prevê-se que os padrões de precipitação se tornem mais extremos e incertos, particularmente sob o cenário RCP8.5, com a costa ocidental e a Índia peninsular a enfrentarem estações chuvosas e secas mais intensas. A predominância da variabilidade interna nas escalas sub-regionais complica o planeamento da adaptação, mas a trajetória geral é clara: as alterações climáticas irão amplificar as vulnerabilidades existentes e criar novas (Sanjay et al., 2020).

 

IA na Saúde: promessas e perigos

 

Bharati et al. (2023) documentam a rápida proliferação de modelos de IA na área da saúde, destacando tanto as suas promessas como as suas limitações. A opacidade de muitos modelos, o risco de viés e erro, e a dificuldade de avaliar as explicações representam obstáculos significativos à confiança e à adoção. Ainda assim, a IA demonstrou capacidade para melhorar a precisão diagnóstica, personalizar o tratamento e otimizar a alocação de recursos. O desafio é garantir que estes benefícios são alcançados sem introduzir novos riscos sistémicos (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Bennett e Hauser (2013) mostram que os sistemas de apoio à decisão baseados em IA, quando cuidadosamente concebidos, podem superar os modelos convencionais de cuidados de saúde, proporcionando melhores resultados a um custo mais baixo. No entanto, a complexidade e a incerteza dos ambientes do mundo real exigem estruturas robustas para a simulação, adaptação e supervisão. As lições aprendidas em IA na área da saúde são diretamente relevantes para a gestão de ameaças existenciais noutros domínios.

 

Resolução Criativa de Problemas em agentes de IA

 

Gizzi et al. (2022) defendem que a Resolução Criativa de Problemas em IA é essencial para lidar com a incerteza ambiental e com novos desafios. O seu esquema, que categoriza os problemas de RCP em termos de formulação do problema, representação do conhecimento, manipulação do conhecimento e avaliação, fornece um modelo valioso para conceber sistemas de IA capazes de responder a riscos existenciais sem precedentes. A capacidade de RCP, tanto em humanos como em máquinas, será crucial para a adaptação e recuperação de crises.

 

8. O Imperativo da governação global integrada

 

A análise aqui apresentada converge para uma conclusão central: as estruturas de governação existentes na humanidade estão mal equipadas para gerir a escala, a complexidade e a interdependência dos riscos existenciais representados pela IA, pelas alterações climáticas e pelas armas nucleares. A fragmentação da responsabilidade institucional, o foco no curto prazo dos ciclos políticos e a erosão da confiança pública conspiram para minar a eficácia das ações.

 

Rumo a uma revolução na governação global

 

O que é necessário é uma revolução no pensamento da governação global — uma revolução enraizada na compreensão científica, na previsão e na priorização da sobrevivência coletiva em detrimento dos interesses paroquiais. Tal revolução deve abranger:

 

- Interdisciplinaridade: Colmatar as divisões entre conhecimentos técnicos, sociais e políticos.

 

- Transparência: Exigir abertura na pesquisa, implementação e tomada de decisões.

 

- Flexibilidade: Conceber instituições e sistemas que se possam adaptar a novas informações e circunstâncias em constante mudança.

 

- Inclusão: Garantir que as vozes dos mais vulneráveis e menos poderosos são ouvidas e respeitadas.

 

- Solidariedade: Cultivar um sentido de destino e responsabilidade partilhados entre nações e gerações.

 

O papel do Direito e das normas internacionais

 

Os instrumentos jurídicos — tratados, convenções e normas consuetudinárias — continuarão a ser fundamentais para a gestão dos riscos existenciais. No entanto, o ritmo das mudanças tecnológicas, especialmente na IA, ultrapassa a capacidade dos processos jurídicos tradicionais. Novos modelos de governação antecipatória, incluindo mecanismos de “soft law”, fóruns multissetoriais e regulação adaptativa, são essenciais (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

Envolvimento público e legitimidade democrática

 

Em última análise, a legitimidade e a eficácia da governação dos riscos existenciais dependem da compreensão e do apoio público. A educação, a comunicação transparente e os mecanismos participativos genuínos são vitais para a construção do mandato social necessário para ações transformadoras (Bharati, Mondal & Podder, 2023).

 

9. Conclusão

 

A inteligência artificial, as alterações climáticas e as armas nucleares não são meramente desafios técnicos; são manifestações da atual incapacidade da humanidade para governar os imensos poderes transfronteiriços que desencadeamos. Cada um deles, isoladamente, representa um risco de catástrofe irreversível; juntos, as suas interações multiplicam os perigos de formas que desafiam soluções fragmentadas.

 

A literatura científica é inequívoca: abordar estas ameaças de forma isolada é insuficiente. O único caminho viável para garantir um futuro seguro e sustentável é através de ações simultâneas e integradas que reconheçam a sua interdependência. Isto exige uma revolução na governação global, fundamentada na cooperação, na transparência e no compromisso com a sobrevivência coletiva.

 

O próximo passo deverá ser a criação de um grupo de trabalho interdisciplinar — composto por especialistas em IA, cientistas climáticos, especialistas em desarmamento, cientistas sociais e decisores políticos — para expandir e operacionalizar as estratégias aqui delineadas. Só combinando o nosso conhecimento, criatividade e determinação poderemos esperar gerir as ameaças existenciais do século XXI e salvaguardar o potencial das gerações futuras.

 

 

 

 

 

 

(*) A Dr.ª Zahra Mohebi-Pourkani é uma distinta médica generalista e médica de família com uma carreira destacada na área de serviços médicos e de liderança em saúde pública. Desde 2008, acumulou uma vasta experiência clínica em diversas regiões, atuando atualmente como diretora de uma clínica governamental na província de Kerman, no Irão. Além das suas responsabilidades clínicas e administrativas, está profundamente envolvida em atividades académicas e humanitárias. Mantém um forte interesse académico em astronomia amadora, estudos de desenvolvimento e a relação dinâmica entre ciência e sociedade. Esse interesse se estende ao seu trabalho como colaboradora de renomados jornais e revistas iranianos e internacionais. Dedica um esforço significativo a atividades pedagógicas, particularmente no fomento da curiosidade científica entre as crianças por meio de aulas em laboratório. Além disso, ela concebeu e liderou cursos de desenvolvimento profissional para os seus colegas, com foco em tópicos críticos na interseção entre a ciência e o progresso social. A sua ética profissional é caracterizada por um profundo compromisso com o bem-estar social, evidenciado pelas suas colaborações sem fins lucrativos dedicadas à melhoria da vida das crianças iranianas. Defensora dedicada da paz global, é uma defensora vocal do desarmamento e se opõe firmemente à proliferação e ao uso de armas de destruição em massa.

Hassan Fattahi é professor e escritor especializado em física, astronomia e política científica. O seu trabalho abrange investigação original, tradução e consultoria, e tem sido destaque em publicações iranianas e internacionais de renome. Está ativamente empenhado em promover o ensino das ciências no Irão.

O presente artigo foi publicado no sítio em rede da organização humanista indiana Countercurrents. A tradução é da responsabilidade de Ângelo Novo.

 

 

 

 

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