Introdução a uma edição atualizada de A Troca Desigual de Arghiri Emmanuel

 

 

 

John Bellamy Foster e Brett Clark (*)

 

 

 

A obra de Arghiri Emmanuel, A Troca Desigual: Um estudo do imperialismo comercial, foi explosiva quando foi publicada pela primeira vez em francês, em 1969, não só pela profundidade da sua crítica à economia neoclássica, mas sobretudo pelo enorme desafio que representou para a própria teoria económica marxista (1). Esta receção incendiária tornou-se imediatamente evidente, dado que o livro incorporava um extenso debate entre Emmanuel, um economista grego que se tornou diretor de estudos económicos na Universidade de Paris VII, e o economista marxista francês Charles Bettelheim, sob cuja orientação Emmanuel escrevera a sua tese de doutoramento sobre a troca desigual, e cujas visões divergiam drasticamente das de Emmanuel. Assim, Troca Desigual irrompeu no cenário público numa tempestade de controvérsia, que já estava presente no próprio livro e que rapidamente se estendeu a um debate mais amplo, que se prolongou por anos, levantando a questão da relação da classe trabalhadora nas economias capitalistas avançadas com o imperialismo. O impacto de A Troca Desigual foi surpreendente, na época, mas diminuiu à medida que o interesse pela teoria imperialista se desvaneceu na esquerda ocidental e a realidade apontada por Emmanuel passou a ser frequentemente negada. Entretanto, a investigação que iniciara foi retomada por outros, como o economista franco-egípcio Samir Amin, e transformada noutras direções. No século XXI, porém, a realidade das trocas económicas e ecológicas desiguais passou a ser considerada o cerne da luta anti-imperialista mundial, e o interesse pela obra clássica de Emmanuel voltou a crescer exponencialmente.

 

A questão das trocas internacionais desiguais remonta à crítica de Karl Marx à Economia Política clássica e, de facto, foi uma questão importante dentro da Economia Política liberal clássica (2). Na sua obra seminal Sobre os Princípios da Economia Política e da Tributação (1817), David Ricardo partiu do pressuposto de que o capital era imóvel globalmente, enquanto a lei de ferro malthusiana dos salários significava que os custos do trabalho eram determinados pelas necessidades de subsistência física. Portanto, a lei do valor não se aplicava às transações internacionais. Embora se pudesse supor que os salários dos trabalhadores eram igualados, uma vez que eram determinados mais ou menos pela subsistência absoluta, os lucros, devido à imobilidade do capital entre as nações, não o eram. Consequentemente, Ricardo introduziu a sua famosa teoria da vantagem comparativa para explicar o comércio internacional, como um afastamento e uma inversão da lei do valor, baseando-se na oferta e na procura como principal determinante (3).

 

A análise de Ricardo demonstrou que sempre foi benéfico para os países envolverem-se no comércio, exportando os produtos para os quais tinham a maior vantagem comparativa, em relação a outros bens que podiam optar por trocar. Contudo, ele também reconheceu que, devido às diferentes produtividades (e intensidades de trabalho), alguns países receberiam mais trabalho por menos trabalho nas trocas internacionais, enquanto outros receberiam menos trabalho por mais (4). “Mesmo segundo a teoria de Ricardo”, observou Marx, “três dias de trabalho de um país podem ser trocados por um dia de trabalho de outro país… Nesse caso, o país mais rico explora o mais pobre, mesmo quando este último ganha com o comércio, como explica John Stuart Mill na sua obra Some Unsettled Questions(5). Como Amin resumiu a teoria ricardiana da vantagem comparativa no comércio internacional: “Tudo o que esta teoria nos permite afirmar é que, num dado momento, dada a distribuição dos níveis de produtividade, é do interesse de ambos os países efetuar uma troca, mesmo que desigual” (6).

 

“Duas nações”, explicou Marx nos Grundrisse, “podem trocar segundo a lei do lucro de tal forma que ambas ganhem, mas uma sai sempre prejudicada… Uma das nações pode constantemente apropriar-se de uma parte do trabalho excedente da outra, sem oferecer nada em troca” (7). No terceiro volume de O Capital, observou que “o país privilegiado recebe mais trabalho em troca de menos”, obtendo assim “lucro excedente”, enquanto, inversamente, o país mais pobre “oferece mais trabalho objetivo do que recebe” (8). Relacionado com isto estava o facto de “a taxa de lucro ser geralmente mais elevada [nos países subdesenvolvidos] devido ao menor grau de desenvolvimento, bem como a exploração do trabalho através do uso de escravos e trabalhadores manuais, etc.” (9). Assim, era possível ver “como uma nação pode enriquecer à custa de outra” (10). Embora Marx nunca tenha conseguido escrever o volume planeado sobre a economia mundial e as crises, é evidente que — partindo da realidade da troca desigual já descrita por teóricos como Ricardo e Mill — considerava que o problema residia, em última análise, nas desigualdades laborais, com as nações pobres a oferecerem mais trabalho em troca de menos, no processo de troca (11).

 

Atribui-se ao marxista austríaco Otto Bauer o mérito de ter sido o primeiro a fundamentar a troca desigual de forma mais sólida. Num texto de 1924, Bauer afastou a premissa de Ricardo de que as taxas de lucro entre países eram desiguais, substituindo a noção de imobilidade do capital pela de mobilidade do capital e pela tendência para a equalização dos lucros a nível internacional. Contudo, a troca desigual persistia, na exposição de Bauer, devido às diferentes composições orgânicas do capital e, consequentemente, às diferentes taxas de produtividade entre as economias mais e menos avançadas. Isto significava que, no processo de equalização das taxas de lucro entre países, ocorria uma transferência de valor dos países mais pobres para os mais ricos. Na teoria do valor modificada de Marx, que incorporava os preços de produção, a equalização das taxas de lucro exigia uma transferência de valor das indústrias com menor composição orgânica de capital (ou menor relação capital investido/trabalho) para aquelas com maior composição orgânica. O mesmo processo essencial, defendia Bauer, ocorria entre países. Na equalização das taxas de lucro a nível internacional, os países com maior composição orgânica ganhavam valor à custa daqueles com menor composição orgânica. Nas palavras de Bauer, “Os capitalistas das zonas mais desenvolvidas não só exploram os seus próprios trabalhadores, como também se apropriam de parte da mais-valia produzida nas zonas menos desenvolvidas. Se considerarmos os preços das mercadorias, cada zona recebe em troca tanto como deu. Mas, se observarmos os valores envolvidos, verificamos que as coisas trocadas não são equivalentes” (12).

 

O economista marxista alemão Henryk Grossman, escrevendo na década de 1930, deu continuidade à análise de Bauer. Como o próprio afirmou, “o comércio internacional não se baseia numa troca de equivalentes porque, tal como no mercado nacional, existe uma tendência para a equalização das taxas de lucro. As mercadorias do país capitalista avançado, com maior composição orgânica, serão, portanto, vendidas a preços de produção superiores ao seu valor; as do país atrasado, a preços de produção inferiores ao seu valor” (13).

 

Toda a abordagem da troca desigual centrada na composição orgânica do capital e na consequente maior produtividade nos países capitalistas desenvolvidos, foi designada por Emmanuel como “troca desigual em sentido amplo” (14). Aqui, os países com maior produtividade, devido a uma composição orgânica de capital mais elevada e, portanto, a taxas de produtividade mais altas, apropriavam-se da mais-valia em regiões mais pobres, simplesmente como produto da equalização das taxas de lucro a nível internacional. Neste caso, era verdade que os países mais ricos ganhavam à custa dos países mais pobres, mas esta era uma função mecânica da equalização das taxas de lucro e não constituía, por si só, exploração imperialista propriamente dita (15).

 

O que Emmanuel trouxe ao conceito de troca desigual, e que lhe conferiu uma importância duradoura, foi uma teoria que se centrava na mobilidade internacional do capital aliada à imobilidade internacional do trabalho. A sua análise não negava a importância da “base alargada” da troca desigual, tal como articulada por Bauer, Grossman e outros. Mas, para Emmanuel, existia uma segunda forma de troca desigual, em última análise mais significativa, associada à exploração imperialista. Ou seja, as economias centrais do sistema capitalista global, com salários elevados em termos globais, extraíam trabalho excedente das economias periféricas, com salários persistentemente baixos, aumentando a acumulação no centro em detrimento da periferia.

 

Embora Ricardo tivesse reconhecido a existência de trocas desiguais, para Emmanuel as causas eram inversas. Em vez das taxas desiguais de lucro e dos salários de subsistência padronizados internacionalmente, propostos por Ricardo, Emmanuel considerou a “desigualdade salarial entre países”, com os lucros “tendendo à equalização” (16). Emmanuel não construiu a sua análise primordialmente em termos da teoria do imperialismo no sentido de V. I. Lenine. Em vez disso, assumiu, neste modelo abstrato, não o capital monopolista, mas a livre concorrência. Também não iniciou a sua análise com a produção e a acumulação baseadas em classes, embora ambas fizessem parte dela. Em vez disso, tratou os salários como uma variável independente, com base na análise de Marx sobre o seu carácter historicamente determinado.

 

A mais-valia surge na produção capitalista porque o valor gerado pelo exercício da força de trabalho de um trabalhador excede o valor dessa força de trabalho ou o salário pago ao trabalhador. Nos principais países capitalistas — incluindo não só as antigas potências coloniais, mas também, segundo Emmanuel, os “Estados colonizadores brancos” (Estados Unidos da América, Canadá, Austrália e Nova Zelândia) que, efetivamente, exterminaram ou retiraram os habitantes indígenas originais da terra — os salários eram comparativamente elevados ao nível global. Isto promoveu o desenvolvimento económico interno e autocentrado. Um “super-salário”, como nos Estados Unidos da América, segundo Emmanuel, gerou uma “interação dialética positiva entre a variação dos salários e o desenvolvimento económico” (17). Em contraste, todos os países da periferia tinham salários muito mais baixos, associados a taxas de exploração mais elevadas, gerando uma dialética de subdesenvolvimento. Foi isso que constituiu a base estrutural para as trocas desiguais. Nas relações comerciais entre o que hoje se designa por Norte Global e o Sul Global, o primeiro conseguia obter mais trabalho por menos, ou seja, uma transferência líquida de valor, devido à desigualdade estrutural de salários inerente ao sistema internacional (e reforçada pelas leis de imigração) — facto que era ocultado pela suposta igualdade comercial quando expressa em termos de preço, e não em valor-trabalho.

 

A razão pela qual a teoria da troca desigual de Emmanuel gerou tanta controvérsia no marxismo ocidental, deveu-se menos a um afastamento em relação a Marx, resultante da ênfase de Emmanuel nos salários em oposição à acumulação de capital, como elemento determinante do desenvolvimento capitalista, do que às implicações políticas diretas da sua análise. Friedrich Engels e Lenine, ao proporem a noção de uma aristocracia operária, defenderam que uma camada superior dos trabalhadores tinha sido conscientemente comprada pelo capital, com a generosidade permitida pelo imperialismo (18). Em contraste, Nikolai Bukharin via isto menos em termos de uma aristocracia operária, nos estados capitalistas avançados, do que num aburguesamento de toda a classe operária nas economias desenvolvidas. Assim, referia-se aos “cêntimos adicionais” oferecidos aos trabalhadores dos países ricos, provenientes dos lucros do imperialismo, levando à sua cooperação com o capital. Seguindo Bukharin, muito mais do que Engels ou Lenine, Emmanuel expandiu a sua crítica para além de uma mera aristocracia operária, abrangendo toda a classe operária ocidental que era vista como beneficiária do imperialismo (19). Isto apontava para aquilo a que Oskar Lange chamara “imperialismo popular”, que dividia os trabalhadores do Norte Global dos do Sul Global. Nas palavras de Emmanuel, “o ‘imperialismo popular’ de Lange tornou-se hoje uma realidade nos grandes países capitalistas” (20). Emmanuel apresentou, portanto, esta visão surpreendente: “Uma vez que um país ascende, por algum acidente histórico, mesmo que seja apenas pelo facto de um clima mais rigoroso ter gerado necessidades adicionais para os homens, esse país começa a fazer com que outros países paguem o seu elevado nível salarial por meio de trocas desiguais. A partir deste ponto, o empobrecimento de um país torna-se uma função crescente do enriquecimento de outro, e vice-versa” (21).

 

Embora não negasse que os trabalhadores dos países centrais fossem explorados, Emmanuel defendia que existia um ponto a partir do qual o sentimento de ganho com o imperialismo poderia, por completo, abafar as lutas nacionais, criando um bloco imperialista capitalista-operário, e que esse ponto já tinha sido atingido. Perguntou: “Será possível que o marxismo revolucionário baseado na… solidariedade tenha sido inibido pelas terríveis implicações de tal proposição [a troca desigual que leva a um imperialismo popular] em relação à solidariedade internacional dos trabalhadores?” (22) Escrevendo durante a Guerra do Vietname, apontou exemplos de trabalhadores norte-americanos a apoiar o imperialismo dos E.U.A. contra o Vietname (bem como o seu apoio aos ataques dos E.U.A. a Cuba) em vez de demonstrarem solidariedade internacional. Desenvolvimentos semelhantes ocorreram em França (e entre os colonos brancos na Argélia) durante a Guerra Franco-Argelina (23).

 

Emmanuel chegou ao ponto de sugerir, contrariando a lógica histórica, que se pudéssemos imaginar os Estados Unidos da América reduzidos a um país subdesenvolvido, isso seria desastroso para os trabalhadores norte-americanos, que seriam “lançados para um abismo”, mas que tal desenvolvimento dificilmente afetaria as perspetivas de longo prazo dos próprios capitalistas norte-americanos. “Desconsiderando as perdas materiais sofridas durante e como resultado do próprio acontecimento, o capitalista americano não se encontraria em pior situação” numa situação destas (24). Esta visão negava a estrutura mais ampla do capitalismo monopolista norte-americano, incluindo as muitas formas, para além da troca desigual, pelas quais o excedente era extraído do Sul Global pelas empresas multinacionais. Mais significativamente, o argumento de Emmanuel sugeria que era a classe trabalhadora, e não a classe capitalista, do Norte Global, quem mais beneficiava da troca desigual/imperialismo.

 

Por detrás das críticas mordazes de Bettelheim a Emmanuel e do debate aceso que se seguiu, estava, portanto, a questão de um imperialismo popular, tema que desafiou grande parte da Economia Política marxista do pós-Segunda Guerra Mundial, na Europa e na América do Norte. A análise de Emmanuel foi diretamente confrontada por Bettelheim e, posteriormente, modificada e ampliada por Amin. No meio século que se seguiu à publicação do livro de Emmanuel, a sua análise tornou-se ainda mais relevante. Apesar de todas as limitações da sua análise em A Troca Desigual, a afirmação de Emmanuel de que a teoria do valor de Marx era superior a todas as outras abordagens na sua capacidade de revelar as realidades do “imperialismo do comércio” foi fortemente confirmada no contexto da economia global das cadeias de valor do século XXI (25).

 

Bettelheim e Emmanuel

 

As complexidades teóricas e políticas e a divergência de pontos de vista dentro do marxismo, desencadeadas por A Troca Desigual, de Emmanuel, são melhor compreendidas através da lente do debate com Bettelheim nos cinco apêndices do livro. O livro de Emmanuel foi publicado numa série editada pelo seu mentor, Bettelheim. Embora Bettelheim apoiasse fortemente a crítica de Emmanuel à teoria da vantagem comparativa, e as suas visões coincidissem em relação à compreensão da "teoria básica" da troca desigual, como em Bauer e Grossman, discordavam sobre o cerne da questão para Emmanuel: a troca desigual resultante da desigualdade salarial entre nações ricas e pobres, ou o "imperialismo do comércio". Entre as críticas levantadas por Bettelheim, encontravam-se as de que (1) uma nação não pode explorar outra (uma opinião em que se distanciava de Marx e de Lenine), (2) a exploração não poderia ocorrer através de trocas, mas apenas na produção, (3) nenhuma análise de trocas desiguais poderia desconsiderar a produtividade, (4) o argumento de Emmanuel invertia a causalidade de Marx ao considerar os níveis salariais como a variável independente que determinava a acumulação, e (5) a análise de Emmanuel baseava-se na livre concorrência, e não no capitalismo monopolista (26).

 

Todas estas críticas visavam reforçar a rejeição de Bettelheim ao argumento fundamental de Emmanuel, de que as nações ricas não só extraíam excedentes das nações pobres através de trocas desiguais, mas também que os trabalhadores dos países capitalistas desenvolvidos, na prática, exploravam os trabalhadores dos países subdesenvolvidos. Em resposta a Emmanuel, Bettelheim argumentou que, embora os trabalhadores do Sul Global fossem frequentemente “sobre-explorados”, no sentido de receberem menos do que o valor da sua força de trabalho (ou o custo da sua reprodução), estes “trabalhadores dos países subdesenvolvidos eram [mesmo assim] menos explorados do que os dos países avançados e, portanto, dominantes”. Emmanuel referiu-se a este como o “Paradoxo de Bettelheim” (27).

 

O raciocínio de Bettelheim, que não foi acompanhado por qualquer análise empírica, era o de que, como a composição orgânica do capital nas nações ricas era muito maior, a produtividade do trabalho, ou produção por hora de trabalho, era também muito maior, o que se traduzia numa taxa de exploração mais elevada (a proporção entre o trabalho excedente e o trabalho necessário) nos países economicamente avançados, por oposição aos países subdesenvolvidos. Como o tempo de trabalho necessário para produzir um bem era reduzido, enquanto o trabalho excedente aumentava proporcionalmente, isto representava uma taxa de mais-valia mais elevada. Emmanuel cometera o erro, argumentava Bettelheim, de não ter em conta adequadamente a produtividade do trabalho.

 

Com base na existência de capital monopolista - em contraposição à dependência da livre concorrência em que Emmanuel caiu no seu modelo - Bettelheim insistiu na existência de uma “exploração imperialista” por meio de investimentos de corporações multinacionais no Terceiro Mundo. Contudo, ele argumentou que essa dinâmica era possibilitada pela mais aperfeiçoada tecnologia, maior produtividade e maior taxa de exploração nas economias capitalistas centrais. Além disso, esta extração monopolista de excedentes, afirmou, não podia ocorrer através de trocas, mas era o resultado de relações internacionais de produção. Em contraste, sugeriu que Emmanuel se tinha iludido com a fantasia da mera “exploração comercial” dissociada da produção (28). Outros economistas políticos marxistas, na Europa e nos Estados Unidos da América, adotaram o mesmo argumento de Bettelheim em relação à maior taxa de produtividade e maior taxa de exploração nos países capitalistas desenvolvidos, como foi o caso de figuras como Ernest Mandel, Michael Kidron, Geoffrey Kay e outros até aos dias de hoje (29).

 

O que era crucial, na visão de Bettelheim, era que a análise de Emmanuel negava a exploração e a luta de classes no centro do sistema capitalista, “fazendo com que os proletários dos países ricos parecessem ser os ‘exploradores’ dos países pobres. Estes proletários devem, portanto, ter deixado de ser explorados, o que significa que o seu trabalho já não é uma fonte de mais-valia(30). A partir disto, Bettelheim concluiu:

 

“A posição de Emmanuel parece-me claramente incompatível com o marxismo, uma vez que nega a existência da luta de classes nos países industrializados (exceto na forma económica dessa luta, o que está em conformidade com a posição sindicalista clássica, ou seja, uma posição “economista”, e, portanto, não marxista). Na verdade, equivale a negar a existência da luta de classes política e das próprias classes, quando se trata a burguesia e o proletariado dos países industrializados como idênticos, alegando que o proletariado “se tornou burguês” e, por isso, foi integrado na burguesia” (31).

 

A tese de Emmanuel, a ser verdadeira, insistia Bettelheim, apontaria para uma rutura na “solidariedade objetiva dos trabalhadores dos países industrializados e dos países dominados, enquanto, na verdade, esta solidariedade objetiva, representando uma luta de classes comum, permanecia tão forte como sempre” (32). No entanto, os capitalistas, tanto na burguesia imperialista como nas burguesias nacionais do Terceiro Mundo, poderiam, argumentou Bettelheim, utilizar a noção de Emmanuel de uma divisão entre os trabalhadores internacionalmente, devida à troca desigual, para distrair os trabalhadores das lutas de classes nos seus próprios países. A grande burguesia dos países subdesenvolvidos poderia utilizar indevidamente a luta contra o imperialismo para consolidar o seu próprio poder (33).

 

As respostas de Emmanuel, no debate com Bettelheim, complicaram ainda mais a situação, sem, no entanto, lhe colocarem um fim conclusivo. Argumentou que, para Marx, os níveis salariais determinavam a produtividade (através da inovação tecnológica em resposta aos elevados salários) e que Bettelheim e os seus outros críticos simplesmente inverteram a lógica de Marx: “Estabelecer a produtividade do trabalho como o elemento determinante do valor da força de trabalho, e também dos salários, é uma ideia diametralmente oposta à conceção marxista, ou mesmo a qualquer conceção objetivista, de valor” (34). Não havia contradição alguma no facto de os capitalistas de um país obterem mais-valia da produção de trabalhadores noutros países por meio de trocas, uma vez que a produção e a troca estavam interligadas. A apropriação da mais-valia, embora em última análise enraizada na produção, não ocorreu exclusivamente dentro do processo produtivo (35). Em última análise, Emmanuel apontou para a necessidade de uma teoria do valor mundial, que transcendesse as condições meramente nacionais que ocultavam as relações de valor globais (36).

 

Amin e Emmanuel

 

Como Samir Amin indicou em “Fim de um Debate”, no seu livro Imperialismo e Desenvolvimento Desigual (1977), a abordagem de Emmanuel era vulnerável a críticas, uma vez que os pressupostos restritivos incorporados no seu modelo económico impossibilitavam a abordagem das questões mais essenciais no que respeita às relações de troca desigual. Entre as limitações da análise de Emmanuel estavam (1) o seu tratamento do salário como uma variável independente, em vez de estar dialeticamente relacionado com o desenvolvimento histórico da produção e da acumulação; (2) a sua consequente incapacidade para lidar adequadamente com a questão da produtividade; (3) as limitações históricas mais vastas da sua análise, que, por estar enraizada no pressuposto da livre concorrência, não era aplicável, nem às economias não capitalistas nem, mais significativamente, às condições do capitalismo monopolista; (4) a consequente falta de uma explicação histórica desenvolvida para a imobilidade do trabalho; e (5) a tendência da sua teoria para apontar para uma exploração direta dos trabalhadores da periferia pelos trabalhadores do centro, através das relações comerciais, como se tais transações económicas não fossem todas elas mediadas e dominadas pelo capital no seu próprio interesse (37). No entanto, a genialidade da análise de Emmanuel, na visão de Amin, foi ter levantado pela primeira vez a questão do valor mundial, indicando corretamente que o trabalho, uma vez que se dedicava à produção de mercadorias internacionais, era ele próprio internacional, sujeito a um sistema mundial de valor (38).

 

O problema teórico fundamental na análise de Emmanuel era o de como lidar com as diferenças no desenvolvimento das forças produtivas e da produtividade nas diferentes partes do mundo. Aqui, Amin introduziu uma definição historicamente mais geral e teoricamente irrefutável de troca desigual, que já não se baseia, simplesmente, em diferenciais salariais, nem considera a produtividade como dependente do nível salarial. Como afirmou Amin, “a teoria essencial da troca desigual” aponta para a realidade de que “os produtos exportados pela periferia são importantes”, em termos puramente económicos, e não simplesmente enquanto recursos naturais, “na medida em que a diferença entre os rendimentos do trabalho é maior do que a diferença entre as produtividades” (39). Isto era particularmente evidente quando os processos de produção e os valores de uso específicos eram os mesmos. Mas o facto de que, no sistema internacional de produção, uma hora de trabalho em qualquer parte do sistema ser comparável a uma hora de trabalho em qualquer outro lugar do sistema conferia à análise um carácter universal (40).

 

Amin afastou-se claramente da noção de Emmanuel de que os níveis salariais eram determinantes das forças produtivas, da produtividade do trabalho e da acumulação. Na estrutura teórica de Emmanuel, verificou-se uma tendência para considerar os salários elevados como diretamente relacionados com a troca desigual. Em contraste, Amin defendeu que os salários mais elevados nas economias capitalistas desenvolvidas surgiram historicamente como complemento do desenvolvimento económico. Assim, não podiam ser atribuídos principalmente à troca desigual, mas tinham múltiplas causas (41). Embora insistisse que os trabalhadores do Norte Global beneficiavam da exploração imperialista na troca desigual, Amin indicou que esta era invariavelmente mediada pelo capital monopolista dominante, que se assenhoriava da maior parte, de longe, do excedente apropriado, agravando, consequentemente, os seus próprios problemas de absorção do excedente (42).

 

Bettelheim tinha sublinhado, na sua crítica a Emmanuel, que os elementos compradores nos países subdesenvolvidos poderiam aproveitar-se da teoria da troca desigual e da luta contra o imperialismo, centrando-se no conflito nacional em lugar do conflito de classes, para consolidar o seu próprio domínio. No entanto, para Amin, isto apontava simplesmente, em consonância com toda a análise marxista do imperialismo, para a dupla luta, de classes e de nações, e para a necessidade de desenvolver uma forte consciência revolucionária da classe trabalhadora (43).

 

Adotando uma postura algo mais filosófica, os marxistas eurocêntricos procuraram combater Emmanuel e outros teóricos do imperialismo com aquilo a que Amin chamou de “argumento epistemológico”, alegando que o foco na extração de mais-valia dos países periféricos através de trocas desiguais assentava na circulação, e não na produção, como fundamento da análise, fetichizando, assim, a primeira. Ao responder a tais pontos de vista, Amin não só enfatizou a inter-relação entre produção e troca, como também declarou categoricamente que “a troca ‘desigual’ não é mais do que o mecanismo de circulação da mais-valia na fase imperialista do capitalismo”. Longe de ignorar a importância da circulação, o próprio Marx, como salientou Amin, dedicou-lhe todo o terceiro volume de O Capital, não lhe conferindo, assim, uma importância “epistemológica” menor (44).

 

O ponto de maior divergência entre Amin e Emmanuel foi com respeito à análise histórica. O modelo de Emmanuel assentava inteiramente na premissa artificial do comércio livre, na medida em que pressupunha a ausência de capital monopolista, embora muitos dos fatores históricos por ele considerados, como a imobilidade internacional do trabalho e a mobilidade internacional do capital, fossem menos característicos da era do comércio livre (onde as premissas de Ricardo eram mais realistas) do que do capitalismo monopolista. Assim, Amin adotou o capitalismo monopolista/imperialismo, nos termos estabelecidos por Lenine e pelos teóricos subsequentes do imperialismo, como base da sua própria abordagem. A troca desigual no comércio internacional e a ascensão de um sistema de valor mundial teriam de ser analisadas na perspetiva do “capitalismo monopolista generalizado” (45).

 

Foi no capitalismo monopolista do século XX que foram instituídas leis de imigração mais restritivas, concebidas para controlar a mão-de-obra a nível internacional, reforçando a imobilidade global do trabalho e a sua sobre-exploração na periferia, ao mesmo tempo que permitiam a sobre-exploração da mão-de-obra migrante nos países metropolitanos (46). Da mesma forma, foi apenas com o crescimento da empresa multinacional que a mobilidade internacional do capital — antes disso, confinada principalmente ao investimento em carteira — se tornou um facto assente. Além disso, argumentou Amin, em concordância fundamental com Ruy Mauro Marini, foi o capitalismo monopolista que tornou a “sobre-exploração” do trabalho na periferia uma realidade mais sistemática (47).

 

Na tentativa de tirar o máximo proveito do facto de a diferença entre os salários ser maior do que a diferença de produtividade, entre o Norte Global e o Sul Global, as empresas multinacionais, cada vez mais — uma vez que a melhoria das tecnologias de comunicação e de transporte o tornou viável — introduziram nas zonas de exportação do Terceiro Mundo a mesma tecnologia e os mesmos processos de produção que existiam no centro da economia mundial (48). Assim, a transferência de valor através do processo de troca desigual foi grandemente intensificada na era da globalização neoliberal, a partir da década de 1980, levando ao desenvolvimento das cadeias de valor globais como uma realidade dominante da produção global.

 

A realidade da troca desigual

 

A elaboração crítica de Amin sobre a análise de Emmanuel, com uma maior consideração histórica, abriu caminho à investigação empírica do comércio internacional, tendo em conta as diferenças de salários e de produtividade. Estudos recentes têm demonstrado claramente que a diferença salarial entre os trabalhadores do Norte Global e do Sul Global é muito maior do que a diferença na sua produtividade. Este importante trabalho elucida como a exploração imperialista desempenha um papel central na criação e transferência de valor mundial, sendo o excedente apropriado pelo capital monopolista do Norte Global. Dadas as limitações das categorias baseadas no preço, a troca desigual reflete a transferência de valor associada ao trabalho incorporado na produção, que permanece oculta nas contas comerciais padrão. Assim, revela a realidade frequentemente invisível das transferências de valor das nações pobres para as nações ricas, através da troca desigual, para além das formas mais visíveis de transferência de excedente por meio de relações de poder monopolistas diretas, tal como registado nas contas correntes.

 

Os contributos de Emmanuel e Amin sobre a troca desigual enriqueceram enormemente a investigação sobre a cadeia global de mercadorias, que estuda a transferência económica de valor dentro das inúmeras ligações de extração, produção, distribuição, consumo e finanças dominadas pelas empresas multinacionais. No século XXI, as empresas multinacionais no centro da economia mundial transferiram a maior parte do emprego industrial para o Sul Global, praticando a externalização da produção a fornecedores independentes. Neste contexto, as grandes corporações puderam beneficiar dos baixos salários pagos aos trabalhadores, externalizando parte dos seus custos diretos de produção e reduzindo a sua responsabilidade pelas condições de trabalho deficientes e pela poluição. Estas condições mantiveram os salários muito baixos no Sul Global e contribuíram para a repressão salarial no Norte. O investimento direto estrangeiro, dos países centrais para as economias periféricas, acelerou o processo de deslocalização e a externalização da produção, reorganizando drasticamente as economias destas últimas e alargando a sua força de trabalho industrial.

 

Como resultado disto, as exportações dos países em desenvolvimento quadruplicaram na segunda metade do século XX, em percentagem das importações dos E.U.A.. Em 2008, 73% de todo o emprego industrial global estava localizado no Sul Global, enquanto, em 2013, a maior parte do investimento direto estrangeiro total foi alocado ao Sul Global (49). A participação do Sul no comércio global de produtos manufaturados disparou, tendo o Norte Global como principal destino das exportações. A manufatura industrializada, as práticas de produção intensiva e a integração global não aliviaram a pobreza no Sul nem levaram à sua convergência com o Norte. Em vez disso, as condições relativas de saúde e ambientais dos trabalhadores nos países em desenvolvimento agravaram-se (50). Além disso, o valor acrescentado, dentro das cadeias globais de mercadorias, acabou por ser atribuído principalmente às atividades económicas no Norte Global, onde os bens eram comercializados e consumidos, em vez do Sul Global, onde se concentrava a maior parte do trabalho produtivo (51).

 

Em “Global Commodity Chains and the New Imperialism” (Cadeias Globais de Mercadorias e o Novo Imperialismo), Intan Suwandi, R. Jamil Jonna e John Bellamy Foster desenvolveram uma abordagem empírica para estudar a transferência invisível de valor, em que a troca desigual permite ao capital monopolista capturar o valor produzido pelo trabalho na periferia (52). Para criar a base para comparações transnacionais, de 1995 a 2014, examinaram os custos unitários do trabalho, ou a relação entre os salários e a produtividade do trabalho, para os oito países com maior participação nas cadeias globais de mercadorias. Os países do Norte Global estiveram representados neste estudo pelos Estados Unidos da América, Reino Unido, Alemanha e Japão, e os países do Sul Global pela China, Índia, Indonésia e México. Os autores verificaram que a diferença salarial entre o Norte e o Sul era muito maior do que as diferenças de produtividade. Assim, os primeiros obtinham muito mais trabalho por menos, no intercâmbio internacional, permitindo que o excedente fosse apropriado pelas corporações multinacionais. Os custos unitários médios do trabalho na indústria transformadora na China, Índia, Indonésia e México variavam entre 37% e 62% dos custos unitários do trabalho nos Estados Unidos da América, indicando que margens de lucro mais elevadas podiam ser obtidas produzindo na periferia. Esta tendência amplifica-se ainda mais quando se consideram todos os outros elos produtivos da cadeia global de mercadorias, que incluem o resto do Sul Global (53). Portanto, as taxas diferenciais de exploração entre as nações levam a uma transferência maciça de excedente dentro do sistema capitalista global.

 

A extensão da troca desigual em curso foi capturada de forma ainda mais detalhada num importante estudo de 2024, publicado na revista Nature Communications, por Jason Hickel, Morena Hanbury Lemos e Felix Barbour. Os autores explicaram que, após a imposição de programas de ajustamento estrutural, nas décadas de 1980 e 1990, no Sul Global, que incluíram a desvalorização das moedas, o corte do financiamento público para o bem-estar social e a proteção ambiental, o incentivo a salários mais baixos para atrair investimento para o setor da indústria transformadora e a criação de instalações orientadas para a exportação, a dinâmica das trocas desiguais intensificou-se. Para avaliar estas relações e condições, procuraram “rastrear os fluxos de trabalho incorporado entre o Norte e o Sul, contabilizando pela primeira vez diretamente os setores, os salários e os níveis de qualificação”, o que lhes permitiu “definir a escala da apropriação do trabalho através de trocas desiguais em termos de tempo de trabalho físico, representando-a também em termos de valor salarial, de uma forma que tem em conta a composição em nível de qualificação do trabalho incorporado no comércio Norte-Sul”. Descobriram que 90% a 91% do “trabalho de produção na economia mundial, em todos os níveis de qualificação e em todos os setores”, ocorreu no Sul Global. No entanto, o valor produzido foi “capturado desproporcionalmente” pelo Norte (54).

 

Só no ano de 2021, o Norte Global teve uma apropriação líquida de “826 mil milhões de horas de trabalho incorporado do Sul Global”, que ocorreu em todas as categorias de qualificação, de baixa a alta, por ação dos “trabalhadores fantasmas invisíveis”, dentro deste sistema de produção generalizada de bens. Isto traduziu-se no equivalente a 18,4 biliões de dólares em salários no Norte Global, mais do dobro do valor apropriado em 1995. As disparidades salariais entre as categorias de qualificação aumentaram significativamente entre 1995 e 2021, resultando em salários no Sul Global 87% a 95% inferiores aos dos seus pares com qualificação equivalente no Norte. Os salários no Norte, neste período, aumentaram onze vezes mais do que os dos trabalhadores no Sul. Ainda assim, a participação dos trabalhadores no PIB diminuiu 1,3% no Norte Global e 1,6% no Sul, demonstrando o enfraquecimento da posição do trabalho em todo o mundo (55).

 

O desequilíbrio foi ainda mais dramático quando se considera a diferença na contribuição das horas de trabalho para a economia global. Em 2021, o Sul Global contribuiu com 90% dos 9,6 biliões de horas de trabalho. Este padrão foi evidente em todos os níveis de qualificação, dado que o Sul Global representou 76% da mão-de-obra altamente qualificada, 91% da mão-de-obra com qualificação média e 96% da mão-de-obra com baixa qualificação, considerando o total de horas de trabalho na produção global. Como resultado, de 1995 a 2021, o Sul Global aumentou de forma constante a sua contribuição para a produção global total em todas as áreas. Hickel, Lemos e Barbour verificaram que “o Sul contribui agora com mais mão-de-obra altamente qualificada para a economia mundial [em horas de trabalho totais]… do que todas as contribuições combinadas de mão-de-obra alta, média e baixamente qualificada do Norte Global”. Os trabalhadores do Sul Global eram tão produtivos como os seus pares do Norte, para além de enfrentarem controlos extremos para maximizar a sua produção. Apesar destas condições, o Sul Global recebeu apenas 44% do rendimento global, tendo os trabalhadores destes países recebido “apenas 21% do rendimento global” em 2021 (56).

 

Entre 1995 e 2021, o Norte Global importou para cima de quinze vezes mais trabalho incorporado do que aquele que exportou para o Sul. No que diz respeito ao trabalho agrícola incorporado, o Norte importou 120 vezes mais do que exportou. “Não há nenhum setor”, explicaram Hickel, Lemos e Barbour, “em que o Norte exporte trabalho líquido para o Sul”. O único fator que atenuou brevemente a taxa de câmbio durante este período foi a China, devido às melhorias salariais naquele país. Esta transferência invisível de valor aumentou ao longo do período e foi acompanhada pela transferência de “terra, energia e materiais incorporados” como parte da produção total. Não há evidências de que o Sul Global esteja a atingir o Norte; de facto, a divergência dentro da economia capitalista global está a aprofundar-se, com uma maior parcela do excedente a ser capturada pelo capital monopolista (57). Este ponto, e as tendências acima destacadas, são ainda mais importantes tendo em conta os recentes argumentos de que a China e outros países dos BRICS, como o Brasil, a Rússia e a Índia, estão a drenar riqueza dos Estados Unidos da América, invertendo a direção geral do imperialismo (58).

 

Como demonstrou Minqi Li, em 2017 a China registou uma perda líquida de trabalho no comércio externo de 47 milhões de anos-trabalhador, enquanto os Estados Unidos da América tiveram um ganho líquido de trabalho de 63 milhões de anos-trabalhador (medido em termos de trabalho total incorporado em bens exportados menos trabalho total incorporado em bens importados), devido à produção de mercadorias na China e noutros países do Sul Global, que foram então consumidas nos Estados Unidos da América. Os baixos custos unitários do trabalho na China e noutros países em desenvolvimento agravaram esta diferença entre a perda e o ganho líquido de trabalho. Além disso, como demonstraram os economistas marxistas Guglielmo Carchedi e Michael Roberts, os países BRICS não estão a drenar os excedentes de outros países do Sul Global nem capital do Norte. Em vez disso, o bloco imperialista no centro da economia global continua a extrair excedentes dos países BRICS (59).

 

Para melhor compreender a drenagem líquida proveniente do Sul Global, é necessário considerar não só as transferências invisíveis de trabalho incorporado em trocas desiguais propriamente ditas, mas também as transferências visíveis de riqueza que acompanham as relações coloniais e imperialistas associadas ao fluxo líquido de capital como parte do comércio internacional, registado nas contas nacionais. Estas contas incluem a balança comercial relativa a importações e exportações, pagamentos líquidos a investidores e bancos estrangeiros, pagamentos de seguros e fretes, e pagamentos de direitos (“royalties”) e patentes. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), num relatório de políticas de 2020, indicou que, de 2000 a 2017, com respeito 134 países em desenvolvimento, houve uma transferência financeira líquida “dos países em desenvolvimento para os países desenvolvidos”. Só em 2012, as transferências líquidas de recursos, devido a uma “recuperação das exportações”, atingiram os 977 mil milhões de dólares. Isto gerou um "ciclo vicioso de endividamento" por meio do qual os países em desenvolvimento, em geral, se encontraram "financeiramente exaustos" (60). O sistema de servidão por dívida internacional resultante da “diferença entre as entradas líquidas de capital e os pagamentos líquidos de rendimentos ao capital estrangeiro, incluindo as variações líquidas nas reservas internacionais”, reproduz-se, em parte, porque “os recursos externos são considerados necessários para financiar o desenvolvimento, mas isso, por sua vez, gera fluxos de retorno de pagamentos de juros e remessas de lucros que têm de ser financiados pelo país em desenvolvimento e podem superar quaisquer fluxos de rendimentos” (61).

 

A realidade subjacente é uma situação “clara e persistente”, visível no sistema internacional de contas, em que o Sul Global sofre, de forma contínua, uma perda líquida de capital para o Norte Global. Segundo a UNCTAD, “os retornos sobre os ativos externos recebidos são geralmente inferiores aos pagamentos efetuados sobre os passivos externos, resultando numa transferência líquida contínua de recursos financeiros dos países em desenvolvimento para os países desenvolvidos” (62). Isto constitui um fluxo inverso de capital, da periferia para o centro, distinto da troca desigual propriamente dita, que aqui emerge simplesmente das relações de poder monopolistas do capital multinacional localizado no Norte Global (63).

 

A transferência de valor económico entre nações está intricadamente ligada, por vias complexas, aos fluxos materiais-ecológicos (64). Como salientou Amin, seguindo Emmanuel a este respeito, existem muitas “outras formas de troca desigual”, que incluem um conjunto de considerações ecológicas, especialmente quando associadas à extração e ao controlo de recursos naturais (65). No âmbito do sistema capitalista, isto dá origem à troca ecológica desigual (a troca de mais valores de utilização físico-natural por menos), por meio da qual existe um fluxo vertical de valor incorporado, em energia e matéria, que vai para além do valor associado à exploração do trabalho do Sul Global pelo Norte Global. Além disso, a troca ecológica desigual está associada à exteriorização, feita pelo Norte, para o Sul, de muitas das consequências ambientais, como a poluição, desta produção internacional, exacerbando as desigualdades e a utilização desproporcional dos bens comuns ecológicos, como a atmosfera e os oceanos (66).

 

Marx observou que a riqueza real incluía as contribuições tanto da natureza como do trabalho, enquanto que, sob a contabilidade capitalista, o valor estava associado apenas ao trabalho. A natureza era considerada uma “dádiva gratuita” para o capital (67). Assim, a natureza fazia parte da “morada oculta” (“hidden adobe”) do capital, uma vez que as suas contribuições estavam fora das categorias económicas normais, constituindo “lucro por expropriação” (68). Aqui, a expropriação envolvia roubo, furto e pilhagem. Esta apropriação sem reciprocidade minava os processos que sustentam a regeneração dos ecossistemas e as próprias condições de vida (69). A chamada acumulação primitiva envolvia a dissolução das formas de propriedade anteriores, a vedação de terras comuns, a alienação da população humana em relação à natureza, o colonialismo, o colonialismo de povoamento, o imperialismo, a pilhagem de recursos no exterior, a escravização e o genocídio, todos os quais contribuíram para o estabelecimento do sistema capitalista polarizado, com a riqueza concentrada nos países centrais (70).

 

Este sistema de roubo é parte integrante das operações quotidianas do capital. A segunda revolução agrícola, entre meados do século XVII e o final do século XIX, envolveu a espoliação dos nutrientes do solo, uma vez que práticas agrícolas intensivas eram empregues para produzir alimentos e fibras para populações urbanas distantes. Os nutrientes não eram devolvidos aos campos como parte de um processo recíproco de restauração da terra. As atividades agrícolas tornaram-se dependentes de insumos externos para tentar manter a produção. De 1840 a 1880, o guano do Peru foi o fertilizante mais valioso do mundo. As ilhas peruanas de guano foram saqueadas, em condições de escravatura de facto, para enriquecer os solos da Europa e dos Estados Unidos da América (71).

 

As relações coloniais e imperiais desempenharam um papel central no estabelecimento e na manutenção de trocas ecológicas desiguais. Em As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano apresentou um extenso relato de como, durante séculos, o Norte Global roubou ao Sul Global os seus recursos naturais, incluindo o ouro, a prata, a borracha e uma vasta gama de produtos agrícolas. O sistema de plantações, em particular, explicou ele, “foi estruturado de modo a torná-lo, na prática, um crivo para o escoamento da riqueza natural” (72). Dentro deste sistema global, “quanto mais um produto é desejado pelo mercado mundial, maior é a miséria que ele traz aos povos latino-americanos cujo sacrifício o cria” (73). Nas condições imperiais de troca económica e ecológica desigual, a América Latina era pobre porque era uma terra rica. Como descreveu Galeano, ela “continua a existir ao serviço das necessidades dos outros, como fonte e reserva de petróleo e ferro, de cobre e carne, de frutas e café, matérias-primas e alimentos destinados a países ricos que lucram mais com o consumo do que a América Latina com a produção” (74). Amin defendeu que este processo contribuiu para a “destruição sistemática dos solos”, a “degradação do ambiente” e o “empobrecimento” dos países dependentes (75).

 

Através das trocas ecológicas desiguais, o Norte Global estava a ultrapassar a sua própria base de recursos, utilizando “áreas-fantasma” no estrangeiro para fornecer alimentos e outros recursos naturais (76). Além disso, o Norte Global utilizou desproporcionalmente os bens comuns ecológicos, amplificando consideravelmente a crise ecológica. Emmanuel indicou que os países desenvolvidos estavam a utilizar ativamente os bens comuns ecológicos ao “descartar os seus resíduos, despejando-os no mar ou expelindo-os para o ar” (77). À medida que o capitalismo global ultrapassa progressivamente os limites planetários, ameaçando a destruição ecológica da vida na Terra, a importância da investigação de Emmanuel sobre as trocas desiguais aumenta, assim como o movimento internacional para confrontar a pulsão de morte do capital.

 

O imperialismo do comércio

 

O imperialismo é um fenómeno complexo, que foi imposto historicamente de formas diferenciadas. Muito está dependente da forma como penetrou originalmente nos domínios das nações periféricas e de inúmeros outros fatores relacionados com diversas características, como as formas de colonização e semi-colonização, a natureza das lutas anticoloniais, o controlo dos recursos naturais, a posição estratégica concebida pela geopolítica, o exercício do poder monopolista e o papel das classes compradoras. Em todos os casos, porém, o imperialismo, dentro do capitalismo, assumiu, em última instância, uma forma económica, em que a drenagem do excedente dos países em desenvolvimento se faz por meios multifacetados, envolvendo formas mais ou menos visíveis de exploração e expropriação. Além disso, o roubo do Sul Global extravasou as meras transferências económicas, chegando às ecológicas, envolvendo a apropriação de terras e recursos. Trata-se de um sistema de veias abertas, que exige revoluções e a desconexão.

 

A análise de Emmanuel sobre as trocas desiguais desempenhou um papel indispensável ao demonstrar que uma análise de valor, que se centra no papel do trabalho na produção, e na troca de trabalho, revela toda a profundidade do imperialismo económico, que inibe os países subdesenvolvidos e os impede de progredir. Representa, assim, as raízes mais profundas do imperialismo económico, atribuíveis ao facto de que, enquanto o trabalho é relativamente imóvel a nível internacional (e enquanto a migração de trabalhadores do Sul Global está estruturada de tal forma que estes transportem consigo, em grande parte, os baixos salários dos seus países de origem), o capital é móvel a nível internacional. Quaisquer tentativas dos países periféricos de se desconectarem do capital internacional e de imporem limites à mobilidade do capital conduzem inevitavelmente a sanções económicas e a intervenções militares emanadas do núcleo imperial do sistema.

 

Referindo-se à sua análise em A Troca Desigual, Emmanuel escreveu: “Se tiver sucesso, terei demonstrado que o comércio internacional não é, como se tem pensado, o calcanhar de Aquiles da teoria do valor-trabalho, mas que, pelo contrário, é [apenas] com base nas premissas desta teoria que podemos compreender certas características do comércio internacional que, até agora, permaneceram inexplicáveis”. Na sua essência, isto exigiu “integrar o valor internacional na teoria geral do valor” (78). Emmanuel teve tanto sucesso que a sua teoria da troca desigual, embora modificada por pensadores posteriores, como Amin, para se adequar à realidade do capitalismo monopolista, se tornou indispensável para a análise da transferência de valor na atual economia global de mercadorias. Esta teoria pôs a descoberto a realidade da agiotagem global do trabalho (“global labor arbitrage”), revelando o sistema de valores mundial que constitui a sua base. Hic Rhodus, Hic Salta! (Aqui está Rodes, salte aqui!)

 

 

 

 

 

 

(*) John Bellamy Foster (n. 1953) é professor de Sociologia na Universidade de Oregon (E.U.A.) e o atual diretor da revista marxista norte-americana Monthly Review. Discípulo de Paul Sweezy e continuador da escola de pensamento crítico por este fundada (com Paul Baran e Harry Magdoff), tem publicado numerosos livros sobre a crise ecológica e sua interseção com a economia política do capitalismo. Merecem destaque: The Vulnerable Planet: A Short Economic History of the Environment (1994), Marx’s Ecology: Materialism and Nature (2000), Ecology Against Capitalism (2002), The Ecological Revolution: Making Peace with the Planet (2009), The Ecological Rift: Capitalism's War on the Earth, com Brett Clark e Richard York (2010), What Every Environmentalist Needs To Know about Capitalism: A Citizen's Guide to Capitalism and the Environment, com Fred Magdoff (2011), The Endless Crisis, com R. W. McChesney (2012), The Theory of Monopoly Capitalism (2014), Trump in the White House: Tragedy and Farce (2017), The Return of Nature: Socialism and Ecology (2020), Capitalism in the Anthropocene: Ecological Ruin or Ecological Revolution (2022), The Dialectics of Ecology: Socialism and Nature (2024) e Breaking the Bonds of Fate: Epicurus and Marx (2025).

Brett Clark é editor associado da Monthly Review e professor de Sociologia na Universidade de Utah, depois de ter sido professor assistente na North Carolina State University, entre 2008 e 2012. Suas áreas de interesse são Ecologia, Economia Política e Ciência Política. É frequente colaborador da Monthly Review além de outras publicações como American Journal of Sociology, Social Problems, Social Science Research, Theory and Society, Sociological Inquiry, The Sociological Quarterly, Organization & Environment, Population & Environment, Global Environmental Politics, Urban Studies, Journal of Agrarian Change, Society & Natural Resources, International Journal of Comparative Sociology e Nature & Culture. É autor de diversos livros, incluindo Critique of Intelligent Design: Materialism versus Creationism from Antiquity to the Present (com John Bellamy Foster e Richard York, Monthly Review Press, 2008), The Science and Humanism of Stephen Jay Gould (com Richard York, Monthly Review Press, 2011) e The Ecological Rift: Capitalism's War on the Earth (com John Bellamy Foster e Richard York, Monthly Review Press, 2011).

Este ensaio constitui a introdução a uma reedição recente do clássico de Arghiri Emmanuel A Troca Desigual, pela Monthly Review Press e foi publicado também na revista Monthly Review, Volume 77, N.º 8 (janeiro de 2026). Todos os direitos reservados. A tradução é da responsabilidade de Ângelo Novo.

 

 

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NOTAS:

 

(1) Arghiri Emmanuel, Unequal Exchange: A Study of the Imperialism of Trade (New York: Monthly Review Press, 1972, 2025).

 

(2) Ler Michael Perelman, The Invention of Capitalism: Classical Political Economy and the Secret History of Primitive Accumulation (Durham: Duke University Press, 2000). A análise apresentada neste e nos próximos parágrafos baseia-se em grande parte em John Bellamy Foster e Hannah Holleman, “The Theory of Unequal Ecological Exchange: A Marx-Odum Dialectic”, Journal of Peasant Studies 41, n.º 2 (2014): pp. 201–5.

 

(3) David Ricardo, On the Principles of Political Economy and Taxation (Cambridge: Cambridge University Press, 1951), pp. 128–49; Samir Amin, Imperialism and Unequal Development (New York: Monthly Review Press, 1977), p. 184.

 

(4) Ricardo, Principles of Political Economy and Taxation, pp. 135–36.

 

(5) Karl Marx, Theories of Surplus Value, Part 1 (Moscow: Progress Publishers, 1971), pp. 105–6; John Stuart Mill, Essays on Some Unsettled Questions of Political Economy (London: John W. Parker, 1844), p. 2.

 

(6) Amin, Imperialism and Unequal Development, pp. 134–35; os itálicos foram acrescentados.

 

(7) Karl Marx, Grundrisse (London: Penguin, 1973), p. 872.

 

(8) Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), p. 345.

 

(9) Marx, Capital, vol. 3, p. 345; Ingrid Harvold Kvangraven, “200 Years of Ricardian Trade Theory: How Is This Still a Thing? Developing Economics, April 23, 2017, developingeconomics.org.

 

(10) Karl Marx, The Poverty of Philosophy (New York: International Publishers, 1963), p. 223.

 

(11) É difícil determinar em que medida as ideias de Marx se mantiveram dentro do quadro de Ricardo e Mill a este respeito e em que medida foram além das perspetivas destes, dada a natureza incompleta do seu trabalho nesta área.

 

(12) Otto Bauer, The Question of Nationalities and Social Democracy (Minneapolis: University of Minnesota Press, 2000), p. 200; Emmanuel, Unequal Exchange, p. 175.

 

(13) Henryk Grossman, The Law of Accumulation (London: Pluto Press, 1993), p. 170.

 

(14) Emmanuel, Unequal Exchange, p. 167; Guglielmo Carchedi, Frontiers of Political Economy (London: Verso, 1991), pp. 222–25.

 

(15) Na teoria marxista, a exploração está relacionada com a apropriação do excedente (valor) do produtor direto. A exploração imperialista é um termo utilizado para designar a apropriação líquida do excedente gerado num país subdesenvolvido por um país desenvolvido. Para uma análise aprofundada deste tema, consulte Amiya Kumar Bagchi, The Political Economy of Underdevelopment (Cambridge: Cambridge University Press, 1982), pp. 15–16.

 

(16) Emmanuel, Unequal Exchange, p. 267.

 

(17) Emmanuel, Unequal Exchange, p. 126.

 

(18) Friedrich Engels, The Condition of the Working Class in England (Chicago: Academy Chicago, 1982), pp. 33–34; V. I. Lenin, Imperialism, The Highest Stage of Capitalism (New York: International Publishers, 1939), pp. 13–14. Engels, de facto, afirmou que toda a classe trabalhadora na Inglaterra, tema central do seu artigo, poderia beneficiar-se momentaneamente, em casos raros, do imperialismo, mas que esses benefícios se limitavam, na sua maioria, à camada superior. Sobre a teoria da aristocracia operária, ver Martin Nicolaus, “The Theory of the Labor Aristocracy”, Monthly Review 21, n.º 11 (April 1970): pp. 91–101; Eric Hobsbawm, “Lenin and the ‘Aristocracy of Labor’,” Monthly Review 21, n.º 11 (April 1970): pp. 47–56.

 

(19) Nikolai Bukharin, Imperialism and the World Economy (New York: International Publishers, 1929), pp. 164–67; Emmanuel, Unequal Exchange, pp. 17–79.

 

(20) Emmanuel, Unequal Exchange, p. 181; Paul A. Baran, The Political Economy of Growth (New York: Monthly Review Press, 1957), p. 119.

 

(21) Emmanuel, Unequal Exchange, p. 130.

 

(22) Emmanuel, Unequal Exchange, p. 177.

 

(23) Emmanuel, Unequal Exchange, p. 181.

 

(24) Emmanuel, Unequal Exchange, pp. 183–84.

 

(25) Emmanuel, Unequal Exchange, pp. xlii.

 

(26) Charles Bettelheim, Appendix I, in Emmanuel, Unequal Exchange, p. 300.

 

(27) Emmanuel, Unequal Exchange, pp. 380–83.

 

(28) Bettelheim, Appendix I, in Emmanuel, Unequal Exchange, pp. 271–72, 276, 300–4.

 

(29) Ernest Mandel, Late Capitalism (London: Verso, 1975), p. 354; Michael Kidron, Capitalism and Theory (London: Pluto Press, 1974), pp. 95–123; Geoffrey Kay, The Economic Theory of the Working Class (New York: St. Martin’s Press, 1979), p. 52; Alex Callinicos, Imperialism and Global Political Economy (London: Polity, 2009), pp. 179–81; e Joseph Choonara, Unraveling Capitalism (London: Bookmarks, 2009), pp. 34–35.

 

(30) Bettelheim, Appendix I, in Emmanuel, Unequal Exchange, p. 301.

 

(31) Charles Bettelheim, Appendix III, in Emmanuel, Unequal Exchange, p. 352.

 

(32) Bettelheim, Appendix I, in Emmanuel, Unequal Exchange, p. 309.

 

(33) Bettelheim, Appendix I, in Emmanuel, Unequal Exchange, p. 310.

 

(34) Emmanuel, Unequal Exchange, p. 418.

 

(35) Emmanuel, Unequal Exchange, pp. 328, 380.

 

(36) Emmanuel, Unequal Exchange, pp. 382–83.

 

(37) Amin, Imperialism and Unequal Development, pp. 185, 194, 205, 210, 212, 219, 222.

 

(38) Amin, Imperialism and Unequal Development, pp. 181, 186, 209.

 

(39) Samir Amin, “Self-Reliance and the New International Economic Order,” Monthly Review 29, n.º 3 (July–August 1977): p. 6; Amin, Imperialism and Unequal Development, pp. 215–19.

 

(40) Amin, Imperialism and Unequal Development, p. 189.

 

(41) Amin, Imperialism and Unequal Development, pp. 205, 219–22; Samir Amin, Modern Imperialism, Monopoly Finance Capital, and Marx’s Law of Value (New York: Monthly Review Press, 2018), pp. 193–201.

 

(42) Amin, Modern Imperialism, Monopoly Finance Capital, and Marx’s Law of Value, p. 192; Amin, Imperialism and Unequal Development, p. 207.

 

(43) Samir Amin, “Capitalism, State Collectivism, and Socialism”, Monthly Review 29, n.º 2 (June 1977): pp. 39–41; Samir Amin, Class and Nation (New York: Monthly Review Press, 1980); Bettelheim, Appendix I, in Emmanuel, Unequal Exchange, p. 310.

 

(44) Amin, “Capitalism, State Collectivism, and Socialism”, p. 33.

 

(45) Amin, Modern Imperialism, Monopoly Finance Capital, and Marx’s Law of Value, p. 162.

 

(46) Torkil Lauesen, “The Political Economy of Migration, Monthly Review 75, n.º 11 (April 2024): pp. 53–61.

 

(47) Amin, Imperialism and Unequal Development, p. 222; Amin, “Self-Reliance and the New International Economic Order”, p. 8; Ruy Mauro Marini, The Dialectics of Dependency (New York: Monthly Review Press, 2022).

 

(48) Amin, Imperialism and Unequal Development, p. 221; John Smith, Imperialism in the Twenty-First Century (New York: Monthly Review Press, 2016).

 

(49) United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD), World Investment Report, 2013 (Geneva: United Nations, 2013), p. xii; John Bellamy Foster e Robert W. McChesney, The Endless Crisis (New York: Monthly Review Press, 2012), p. 128.

 

(50) Smith, Imperialism in the Twenty-First Century, pp. 257–58.

 

(51) Intan Suwandi, R. Jamil Jonna e John Bellamy Foster, “Global Commodity Chains and the New Imperialism, Monthly Review 70, n.º 10 (March 2019): pp. 1–24.

 

(52) Suwandi, Jonna e Foster, “Global Commodity Chains, pp. 4–5, 11–21.

 

(53) Martin Hart-Landsberg, Capitalist Globalization (New York: Monthly Review Press, 2013); Intan Suwandi, Value Chains: The New Economic Imperialism (New York: Monthly Review Press, 2019); Zak Cope, Divided World Divided Class (Montreal: Kersplebedeb, 2015); Foster e McChesney, The Endless Crisis; Smith, Imperialism in the Twenty-First Century.

 

(54) Jason Hickel, Morena Hanbury Lemos e Felix Barbour, “Unequal Exchange of Labour in the World Economy”, Nature Communications 15 (2024), artigo n.º 6298: pp. 1–2.

 

(55) Hickel, Lemos e Barbour, “Unequal Exchange of Labour in the World Economy”, pp. 2–7.

 

(56) Hickel, Lemos e Barbour, “Unequal Exchange of Labour in the World Economy”, pp. 2–3.

 

(57) Hickel, Lemos e Barbour, “Unequal Exchange of Labour in the World Economy”, pp. 3–6. Ver também: Jason Hickel, Christian Dorninger, Hanspeter Wieland e Intan Suwandi, “Imperialist Appropriation in the World Economy: Drain from the Global South through Unequal Exchange, 1990–2019”, Global Environmental Change 72 (March 2022): pp. 1–13; Phie Jacobs, “Rich Countries Drain ‘Shocking’ Amount of Labor from the Global South”, Science, August 6, 2024; Mateo Crossa, “Unequal Value Transfer from Mexico to the United States, Monthly Review 75, n.º 5 (October 2023): pp. 42–53.

 

(58) David Harvey, “A Commentary on A Theory of Imperialism”, in A Theory of Imperialism, eds. Utsa Patnaik e Prabhat Patnaik (New York: Columbia University Press, 2017), pp. 169–71.

 

(59) Minqi Li, “China: Imperialism or Semi-Periphery?, Monthly Review 73, n.º 3 (July–August 2021): p. 57; Guglielmo Carchedi e Michael Roberts, “The Economics of Modern Imperialism”, Historical Materialism 29, n.º 4 (2021): pp. 23–69; Michael Roberts, “Further Thoughts on the Economics of Imperialism, The Next Recession, April 23, 2024.

 

(60) UNCTAD, “Topsy-Turvy World: Net Transfer of Resources from Poor to Rich Countries”, Policy Brief n.º 78 (May 2020), p. 2.

 

(61) UNCTAD, “Topsy-Turvy World”, p. 2.

 

(62) UNCTAD, “Topsy-Turvy World”, pp. 2–3.

 

(63) Harry Magdoff, “International Economic Distress and the Third World,” Monthly Review 33, n.º 11 (April 1982): pp. 8–13; Robert Lucas, “Why Doesn’t Capital Flow from Rich to Poor Countries?”, American Economic Review 80, n.º 2 (May 1990): pp. 92–96.

 

(64) Foster e Holleman, “The Theory of Unequal Ecological Exchange”; Torkil Lauesen, “Arghiri Emmanuel and Unequal Exchange, Monthly Review 76, n.º 10 (March 2025): pp. 29–42; Alejandro Pedregal e Nemanja Lukić, “Imperialism, Ecological Imperialism, and Green Capitalism”, Journal of Labor and Society 27, n.º 1 (2024): pp. 105–38.

 

(65) Amin, Imperialism and Unequal Development, p. 212.

 

(66) Stephen Bunker, “Modes of Extraction, Unequal Exchange, and the Progressive Underdevelopment of an Extreme Periphery”, American Journal of Sociology 89 (1984): pp. 1017–64; Andre Gunder Frank, Capitalism and Underdevelopment in Latin America (New York: Monthly Review Press, 1967); Andrew K. Jorgenson, “Unequal Ecological Exchange and Environmental Degradation”, Rural Sociology 71 (2006): pp. 685–712; Andrew K. Jorgenson e Brett Clark, “The Economy, Military, and Ecologically Unequal Exchange Relations in Comparative Perspectives”, Social Problems 56 (2009): pp. 621–46; Andrew K. Jorgenson e Brett Clark, “Footprints: The Division of Nations and Nature”, in Ecology and Power: Struggles Over Land and Material Resources in the Past, Present, and Future, Alf Hornborg, Brett Clark e Kenneth Hermele, eds. (London: Routledge, 2012), pp. 155–67; James Rice, “Ecological Unequal Exchange”, Social Forces 85 (2007): pp. 1369–92; Alf Hornborg, “Towards an Ecological Theory of Unequal Exchange”, Ecological Economics 25 (1998): pp. 127–36.

 

(67) Karl Marx e Friedrich Engels, Collected Works (New York: International Publishers, 1975), vol. 37, pp. 732–33.

 

(68) Marx, Capital, vol. 1, pp. 728–30; Marx e Engels, Collected Works, vol. 28, pp. 433–34; vol. 29, pp. 163–64, 297–98; vol. 30, pp. 351, 385–86; vol. 32, p. 253; vol. 33, pp. 13–14, 35, 67, 241, 351; vol. 34, p. 134; Marx, Capital, vol. 3, pp. 327, 388–89, 448.

 

(69) John Bellamy Foster e Brett Clark, The Robbery of Nature (New York: Monthly Review Press, 2020); Paul Burkett, Marx and Nature (Chicago: Haymarket, 2014).

 

(70) Marx, Capital, vol. 1, pp. 873–940.

 

(71) John Bellamy Foster, Marx’s Ecology (New York: Monthly Review Press, 2000); Brett Clark e John Bellamy Foster, “Ecological Imperialism and the Global Metabolic Rift: Unequal Exchange and the Guano/Nitrates Trade”, International Journal of Comparative Sociology 50, n.º 3–4 (2009): pp. 311–34; Dolores Loustaunau, Mauricio Betancourt, Brett Clark e John Bellamy Foster, “Chinese Contract Labor, the Corporeal Rift, and Ecological Imperialism in Peru’s Nineteenth-Century Guano Boom”, Journal of Peasant Studies 49, n.º 3 (2022): pp. 511–35; Brett Clark, Daniel Auerbach e Karen Xuan Zhang, “The Du Bois Nexus: Intersectionality, Political Economy, and Environmental Injustice in the Peruvian Guano Trade in the 1800s”, Environmental Sociology 4, n.º 1 (2018): pp. 54–66; Mauricio Betancourt, “Guano and the Rise of the American Empire”, Socius 10 (September 2024): pp. 1–11.

 

(72) Eduardo Galeano, Open Veins of Latin America (New York: Monthly Review Press, 1997), p. 60.

 

(73) Galeano, Open Veins of Latin America, p. 61.

 

(74) Galeano, Open Veins of Latin America, p. 1.

 

(75) Amin, Imperialism and Unequal Development, p. 154.

 

(76) Georg Borgström, The Hungry Planet (New York: Macmillan, 1965).

 

(77) Arghiri Emmanuel, “The Socialist Project in a Disintegrated Capitalist World”, Socialist Thought and Practice 16, n.º 9 (1976): pp. 69–87.

 

(78) Emmanuel, Unequal Exchange, pp. xxxiv, xiii.